04/08/2026
- Atualizado às
14:34
Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil
O volume de Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) enviado por países ricos a nações em desenvolvimento e organismos multilaterais sofreu uma redução de 23,1% entre 2024 e 2025, somando US$ 174,3 bilhões (cerca de R$ 900 bilhões). Trata-se do maior corte já registrado na série histórica e do segundo ano seguido de queda.
Os dados constam do levantamento Financiamento para o Desenvolvimento, elaborado por pesquisadores da PUC-Rio/Brics Policy Center com base em registros da OCDE.
Concentração dos Cortes e Liderança dos EUA
Apesar de o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD) ser composto por 33 países e pela União Europeia, cinco nações concentraram 95,7% de toda a redução:
Estados Unidos: Reduziram os repasses em 56,9% e responderam sozinhos por 75,1% (três quartos) da diminuição global.
Demais grandes doadores: Apresentaram queda de investimentos pelo segundo ano consecutivo — Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%).
Motivações: Geopolítica, Defesa e Segurança Energética
Mudança de postura nos EUA: O recuo norte-americano coincide com a política da nova gestão do presidente Donald Trump, contrária a compromissos multilaterais.
Redirecionamento para Defesa e Energia: Países doadores priorizaram gastos internos e estratégicos. Nos EUA, os gastos militares subiram para US$ 845,3 bilhões. Na União Europeia, os gastos com defesa cresceram 11%, enquanto os investimentos em energia quase dobraram na década, impulsionados pela crise energética decorrente da Guerra da Ucrânia.
"Retração Seletiva" no Multilateralismo: Houve redefinição estratégica dos repasses. O financiamento ao sistema da ONU caiu 27% (maior queda registrada), ao passo que o apoio ao Banco Mundial cresceu 6,4% e aos bancos regionais de desenvolvimento subiu 11,9%.
Ucrânia vs. Países Menos Desenvolvidos (PMDs)
Priorização da Ucrânia: Apesar do corte de 91% da ajuda direta dos EUA ao país, a Ucrânia permaneceu como o maior recebedor individual da história da AOD, acumulando US$ 44,9 bilhões. A queda americana foi compensada por 23 países, com as instituições da União Europeia elevando os repasses em 65,2%.
Discrepância regional: O montante recebido exclusivamente pela Ucrânia superou o total destinado aos 44 Países Menos Desenvolvidos somados (US$ 28,1 bilhões).
Impactos Humanitários e Projeções Futuras
África Subsaariana: Principal afetada pela redução, a região registrou queda de 23% na assistência em 2025 (ficando com US$ 29,2 bilhões) e tem projeção de novo recuo de 11,6% em 2026.
Estimativa de mortalidade (Oxfam): Os cortes de 2025 podem resultar em 695 mil mortes em excesso. Se a tendência persistir, o impacto acumulado pode alcançar 9,4 milhões de óbitos até 2030.
Projeção para 2026: O estudo prevê uma nova retração global de 6,9%, o que faria o auxílio financeiro internacional retornar ao nível de 2014.
Desafio Climático: O cenário contrasta com as metas da COP30 em Belém, que estimavam a necessidade de mobilizar US$ 1,3 trilhão para financiamento climático.
Caminhos e Recomendações do Estudo
Foco nos mais pobres: Alocar prioritariamente os recursos escassos aos países com maior grau de vulnerabilidade e dependência financeira.
Transição coordenada: Planejar saídas de financiamento de forma responsável e gradual para evitar choques locais.
Ganho de eficiência: Aumentar a eficácia e o impacto real dos projetos mantidos.