O curta-metragem "Lourdes e Leide", dirigido por Angelo Lima e exibido no Festival Bonito CineSur (MS), reavivou a discussão sobre o impacto humano do maior acidente radiológico do Brasil — a exposição ao césio-137 ocorrida em Goiânia, em 1987. A obra documental aborda o desastre sob a perspectiva da tragédia familiar vivida por dona Lourdes, mãe da menina Leide das Neves (uma das primeiras vítimas fatais), e evidencia o ostracismo social, as sequelas de longo prazo enfrentadas pelos sobreviventes e a cobrança por responsabilização e devidas reparações por parte do Estado.
Foco Humano e Registro Histórico: O documentário retrata o cotidiano solitário de dona Lourdes, perpassado pelas memórias da filha Leide, que faleceu aos 6 anos de idade após ingerir partículas do material radioativo retirado do prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR).
Perda Recente de Sobrevivente: A exibição da obra coincidiu com o recente falecimento de Lucimar das Neves Ferreira, outro filho de dona Lourdes, que tinha 14 anos quando o acidente ocorreu. Pensionista do Estado, ele sofria de enfisema pulmonar e complicações decorrentes do histórico de vulnerabilidade emocional pós-trauma.
Atuação da AVCésio: A Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio) reforçou a necessidade de suporte psicológico e social contínuo à família, ressaltando que novas perdas reavivam os traumas e a dor prolongada enfrentada pelos atingidos pela radiação.
Culpabilidade do Estado: O diretor Angelo Lima criticou a omissão do poder público na fiscalização do material radioativo e na assistência prestada, isentando os catadores e a família — que desconheciam o perigo da substância — de qualquer responsabilidade sobre o evento.
Estigma e Hostilidade Popular: A produção resgata o isolamento social imposto às vítimas na época, que enfrentaram seguidas mudanças de endereço por rejeição da vizinhança e episódios de violência, como o pedrejamento ocorrido durante o sepultamento de Leide (realizado em caixão de chumbo de 700 quilos).
Ações de Memória no CineSur: Além do curta-metragem, o festival em Bonito (MS) organizou uma exposição fotográfica com registros históricos do acidente, buscando combater o apagamento da memória coletiva e alertar para a importância da preparação institucional diante de tragédias dessa dimensão.
"Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos."
— Angelo Lima, diretor do curta-metragem "Lourdes e Leide", sobre a responsabilidade do poder público no acidente do Césio-137.
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