Durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), a pesquisadora e professora da Universidade de Brasília (UnB), Ana Rüsche, apresentou a obra Inesquecíveis: Quatro Séculos de Poetas Brasileiras (Editora Bazar do Tempo), organizada em parceria com a escritora Lubi Prates. O livro recupera, organiza e analisa a produção literária de autoras do século XVIII às primeiras décadas do século XXI que enfrentaram apagamento histórico.
A pesquisa revela que a trajetória das poetas brasileiras é marcada pela necessidade de associar a criação literária ao ativismo social e à organização da própria crítica, em um contexto no qual "apenas escrever" raramente foi uma alternativa viável:
Direito à Educação: Autoras como Maria Firmina dos Reis e Narcisa Amália atuaram como educadoras, defendendo o acesso à instrução para mulheres e populações vulneráveis.
Sufrágio e Imprensa Feminista: O engajamento no movimento pelo voto feminino no início do século XX (com destaque para Martha de Hollanda) e a expansão da imprensa escrita por mulheres (com Patrícia Galvão, a Pagu).
Pauta Racial e Movimento Negro: Protagonismo de autoras como Beatriz Nascimento, Miriam Alves e Conceição Evaristo na estruturação do pensamento e debate racial no país.
Denúncia Social da Violência: O poema de Adélia Fonseca (1827–1920) sobre o assassinato de Julia Fetal exemplifica o uso precoce da literatura como instrumento de denúncia do feminicídio e da impunidade patriarcal.
Trabalho Arquivístico: A reconstituição do corpus poético exigiu a consulta a hemerotecas, facsímiles do século XVIII (como os registros de Ângela Rangel) e teses acadêmicas de resgate documental (a exemplo dos estudos sobre Beatriz Brandão, 1779–1868).
Homenagem Oficial da FLIP: A 24ª edição do evento homenageou a poeta Orides Fontela (1940–1998), cuja trajetória também exemplifica o histórico de invisibilização editorial e crítica sofrido por autoras brasileiras.
Desdobramento na Ficção: A experiência de pesquisa documental inspirou o romance Carga Viva, de Ana Rüsche, abordando o valor estratégico da preservação da memória histórica.
"São mulheres que não só têm que escrever, mas têm que organizar a luta política, têm que organizar a própria crítica. Isso é muito comum na vida das poetas, elas sempre fazem várias coisas ao mesmo tempo: elas traduzem, publicam, organizam outras mulheres."
— Ana Rüsche, pesquisadora e coautora da obra.
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