O ambiente científico e acadêmico brasileiro perdeu uma de suas mentes mais brilhantes e transformadoras. A demógrafa, cientista e matemática Elza Salvatori Berquó faleceu nesta quinta-feira (16 de julho de 2026), em São Paulo, aos 100 anos de idade. Reconhecida amplamente como a "mãe da demografia brasileira", Elza foi pioneira na análise estatística e censitária do país, mapeando as profundas transformações demográficas e urbanas que moldaram o Brasil entre as décadas de 1960 e 2000.
Sua atuação profissional foi marcada por uma rara combinação: o rigor matemático absoluto e o compromisso inabalável com os direitos humanos, com ênfase na defesa dos direitos reprodutivos, igualdade de gênero e combate à mortalidade infantil.
Natural de Guaxupé (MG), Elza Berquó não apenas interpretou os números do Brasil, mas também ergueu as fundações da pesquisa populacional no país, criando instituições que hoje são pilares da ciência nacional.
Sua trajetória confunde-se com a história de resistência intelectual brasileira. Em 1968, enquanto lecionava na Faculdade de Saúde Pública da USP, foi aposentada compulsoriamente pelo regime militar. Em resposta ao silenciamento imposto pela ditadura, uniu-se no ano seguinte a intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti para fundar o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que se tornou um polo de resistência e pensamento crítico.
Mais tarde, sua atuação na Unicamp consolidou o pioneirismo do estado de São Paulo na área, culminando na criação do Nepo (Núcleo de Estudos de População), instituição que desde 2014 leva oficialmente o seu nome e que celebrou o seu centenário em outubro de 2025.
A trajetória de contribuição de Elza Berquó à ciência brasileira conecta sua formação matemática pura de meados do século passado à formulação de políticas públicas estratégicas baseadas em evidências. Essa jornada acadêmica consolidou-se em 1949, quando ela concluiu o mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP), logo após ter se graduado em Matemática pela Universidade Católica de Campinas. No ano seguinte, em 1950, a pesquisadora expandiu suas fronteiras de estudo ao realizar uma especialização em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos, onde refinou as técnicas de análise populacional que aplicaria no Brasil. Seu reconhecimento nacional ganhou forte impulso em 1965, período em que, atuando na Faculdade de Saúde Pública da USP, destacou-se ao publicar uma análise detalhada sobre o desenvolvimento demográfico paulista com base nos censos de 1940 e 1950.
A consolidação de sua carreira docente sofreu uma interrupção política em 1968, quando Berquó foi afastada compulsoriamente de suas funções na USP pelas forças de repressão do regime militar. Em resposta ao silenciamento institucional, ela participou ativamente da fundação do Cebrap em 1969, ajudando a erguer um centro independente que manteve vivo o debate acadêmico e social no país durante os anos mais duros da ditadura. Décadas mais tarde, em 1995, sua expertise foi convocada pelo governo federal para fundar e presidir a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), aproximando formalmente a ciência estatística do planejamento estratégico de Estado. O impacto de seu legado foi chancelado em 2014, ano em que o Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo) foi rebatizado em sua homenagem, convertendo-se no epicentro das celebrações e homenagens institucionais pelo seu centenário de vida, realizadas em outubro de 2025.
Elza Berquó foi uma defensora incansável de que as estatísticas demográficas deveriam servir para melhorar a vida humana real. Na esfera social, foi uma das primeiras cientistas a pautar de forma rigorosa a importância do acesso consciente a métodos contraceptivos e o direito à saúde reprodutiva integral para as mulheres, integrando esses fatores aos índices de desenvolvimento e urbanização do país.
"Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara."
— Jacqueline Pitanguy, cientista política e fundadora da ONG Cepia Cidadania.
"Elza Berquó acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências."
— Richarlls Martins, atual presidente da CNPD.
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