A teoria e a prática da educação infantil no Brasil caminham em direções opostas. Embora a esmagadora maioria dos brasileiros defenda publicamente o diálogo como a ferramenta ideal para educar, as agressões físicas e verbais continuam sendo uma realidade persistente nos lares do país.
É o que revela a segunda edição da pesquisa Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes, realizada pela Quaest a pedido do Instituto Infinis. O estudo ouviu 2.202 brasileiros maiores de idade entre maio e junho de 2026, jogando luz sobre um cenário preocupante: apenas nos quatro primeiros meses de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania já registrou 115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes.
Os dados da Quaest mostram que 9 em cada 10 entrevistados (90%) afirmam categoricamente que conversar é a melhor forma de corrigir comportamentos. No entanto, quando questionados sobre suas atitudes práticas no dia a dia, a realidade se mostra muito mais dura.
Embora haja uma tendência de queda lenta nos índices em comparação com a primeira edição da pesquisa (realizada em 2023), os números de violência autopraticada ou admitida ainda assustam:
| Comportamento Admitido | Índice em 2023 | Índice em 2026 | Tendência de Comportamento |
| Gritar com a criança | 66% | 62% | Queda leve, mas ainda atinge a maioria. |
| Dar tapas ou palmadas | 52% | 49% | Estabilidade alta (quase metade da população). |
| Bater utilizando objetos | 38% | 27% | Queda expressiva de 11 pontos percentuais. |
O Ciclo Intergeracional: De acordo com os pesquisadores do Instituto Infinis, o ato de agredir fisicamente ou verbalmente uma criança tende a ser uma herança comportamental. Adultos que sofreram castigos físicos na infância têm uma probabilidade estatisticamente muito maior de replicar esse padrão com seus próprios filhos.
Outro dado alarmante da pesquisa diz respeito à reação das pessoas ao testemunharem agressões contra menores em locais públicos.
O levantamento aponta que 62% dos brasileiros preferem não interferir ao presenciar um ato de violência contra uma criança. Os motivos para a omissão dividem-se em duas justificativas principais:
Privacidade (50%): Metade dos que não interferem acredita que a educação dos filhos é um assunto estritamente particular da família e que terceiros não devem intervir.
Medo (50%): A outra metade teme a reação violenta do agressor. Esse receio é fundamentado em casos reais recentes, como o ocorrido no Paraná, onde um pai, flagrado chutando a filha de apenas 3 anos em plena rua, ameaçou fisicamente a testemunha que tentou defender a criança.
A ambiguidade da população brasileira também se estende à percepção do trabalho infantojuvenil. Embora 93% dos entrevistados concordem que a prioridade absoluta de quem tem menos de 18 anos deve ser a escola e os estudos, as opiniões mudam quando o trabalho é colocado em pauta:
61% acham aceitável que crianças trabalhem.
88% defendem que os adolescentes trabalhem, caso essa seja a vontade deles.
71% acreditam que os adolescentes devem trabalhar se os pais assim determinarem.
Mesmo com marcos regulatórios importantes no país e discussões recentes sobre o ambiente digital, a população demonstra desconhecimento quase total dos mecanismos legais de proteção.
A pesquisa revelou que 71% dos brasileiros não souberam citar sequer uma lei de proteção à infância — um dado preocupante se considerarmos a recente comemoração dos 36 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a aprovação do ECA Digital.
A versão consolidada e completa deste estudo, com cruzamento de dados regionais e análises de impacto social, será apresentada oficialmente em setembro de 2026, durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância (FPPSI), sob a coordenação do Instituto Infinis.
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