A resposta para os desafios da crise climática global pode estar na sensibilidade e no poder de observação cotidiana das comunidades tradicionais. No Pará, a organização de trabalhadoras rurais, ribeirinhas, quilombolas e indígenas em coletivos e associações tem se consolidado como uma barreira humana contra a perda de biodiversidade. Unindo o conhecimento ancestral a técnicas de manejo sustentável, elas estão transformando quintais produtivos em escudos ecológicos e garantindo a soberania alimentar de seus territórios.
Um exemplo prático dessa mobilização é o projeto conduzido pela organização social FASE Amazônia. Iniciado em 2023 e com um ciclo de execução de três anos concluído neste ano de 2026, o programa estruturou ações em 14 municípios paraenses para impulsionar a autonomia feminina sob a ótica da justiça climática.
Para quem vive da terra, as mudanças no clima não são estatísticas distantes, mas transformações visíveis na textura e na cor dos frutos. A agricultora Daniela Araújo, moradora da comunidade de Pirocaba, em Abaetetuba (nordeste paraense), relata que a observação do açaí foi o estopim para que as mulheres da região percebessem o avanço do desequilíbrio ambiental.
Tradicionalmente, a colheita do fruto exige paciência: ele precisa passar do verde ao roxo escuro, até atingir o tom preto com uma fina camada esbranquiçada, conhecida localmente como “tuíra”. No entanto, as secas prolongadas e os regimes de chuvas imprevisíveis alteraram esse ciclo.
🍇 O Impacto no Manejo: “Agora, ou tu apanhas [colhes] o açaí, ou tu perdes. Ele vai secar. E pra não perder, às vezes tu apanhas ele sem ficar totalmente preto, ou tuíra, como a gente fazia antes”, explica Daniela.
Para combater a quebra de safra e a degradação do solo, os coletivos de mulheres implementaram duas estratégias fundamentais de monitoramento e produção:
Sistemas Agroflorestais (SAFs): O antigo modelo baseado no monocultivo deu lugar à diversificação. Nos SAFs, espécies nativas da floresta dividem espaço com culturas de curto prazo. Essa combinação mantém o solo coberto, úmido e fértil o ano todo, acelerando a regeneração natural da floresta e garantindo que as famílias não dependam de um único produto.
Caderneta Agroecológica: Uma ferramenta de gestão e monitoramento climático e financeiro. As agricultoras anotam sistematicamente todo o ciclo produtivo, mapeando quais espécies enfrentam dificuldades em determinados períodos e associando os gargalos a fatores climáticos específicos.
Além de proteger o bioma, a transição agroecológica redesenhou a dinâmica socioeconômica nas comunidades. Em Igarapé-Miri, na comunidade do Trevo do Carapajó, a Associação de Apoio às Comunidades Amazônicas (APACC), presidida por Benedita Carvalho Gonçalves, lidera o beneficiamento de produtos da sociobiodiversidade.
O excedente dos quintais agroflorestais é transformado e escoado para feiras locais e mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), convertendo a resistência climática em renda líquida para as mulheres.
| Matéria-Prima | Produtos Beneficiados (Agroindústria Artesanal) | Destino Comercial |
| Mandioca / Maniva | Farinha, biju, tucupi e maniçoba | Feiras locais e Merenda Escolar (PNAE) |
| Frutíferas Nativas | Polpas de açaí, cupuaçu e frutos in natura | Comércio municipal e consumo comunitário |
O uso das cadernetas e a liderança nas vendas também aplicaram um golpe em um preconceito histórico do meio rural: a ideia de que as mulheres exercem apenas um papel de "ajuda" no campo. Ao documentar e monetizar sua produção, as moradoras da Amazônia assumiram o papel de provedoras oficiais de seus lares, elevando a autoestima coletiva e garantindo voz ativa na governança e na defesa de seus territórios.
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