Com a chegada do inverno, a rotina de quem convive com a asma costuma ganhar capítulos dramáticos. Janelas fechadas para bloquear o vento, casacos e cobertores pesados resgatados do fundo do armário e o aumento repentino de resfriados formam a combinação perfeita para engatilhar crises respiratórias.
No entanto, especialistas alertam para um mito comum: não é a queda na temperatura que adoece o asmático, mas sim o comportamento humano e os patógenos que ganham força nesta época do ano. No Brasil, estima-se que existam cerca de 20 milhões de pessoas com asma, enfrentando o desafio de manter os brônquios protegidos o ano inteiro.
De acordo com o Dr. Emilio Pizzichini, coordenador da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), o frio atua de forma indireta. O inverno propicia o hábito de manter ambientes trancados e aglomerados, o que acelera drasticamente a transmissão de vírus respiratórios, como o Rinovírus, Influenza (gripe), Covid-19 e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR).
🩺 O Mecanismo da Crise: Se a asma do paciente não está devidamente tratada de forma contínua, as vias aéreas já vivem em um estado de inflamação crônica latente. Quando uma virose ou resfriado comum se instala, ele adiciona uma nova camada de inflamação nos brônquios, gerando o colapso respiratório e a crise aguda.
Para frear esse ciclo, a imunização e o distanciamento de pessoas sintomáticas são fundamentais. Além das vacinas tradicionais contra a gripe e a Covid-19, o uso de máscaras em locais de alta circulação e a busca pela vacina pneumocócica são escudos recomendados pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).
O impacto da falta de controle da doença atinge severamente a ala infantil. Dados do Datasus, analisados pela organização Umane, revelam que os leitos hospitalares são amplamente ocupados por menores de idade durante o período mais frio do ano.
Veja o peso das internações por asma no Brasil:
| Período de Análise | Total de Internações no País | Participação da Faixa Etária (0 a 14 anos) | Impacto Sazonal |
| Mês de Julho | — | 70,5% das internações totais | 4.034 internações de crianças (quase o dobro das 2.108 registradas no verão, em janeiro). |
| Acumulado Anual | 52.087 internações | 73,7% do total de vagas ocupadas | Crianças e adolescentes representam quase 3 a cada 4 internações hospitalares por asma no país. |
O principal gargalo apontado pelos médicos é a falta de diagnóstico e orientação logo no primeiro atendimento na atenção primária. Muitas famílias tratam apenas a crise imediata no pronto-socorro e deixam de iniciar o tratamento preventivo contínuo, que torna as internações eventos raros.
A pneumologista Marcela Marques destaca que pequenos ajustes na dinâmica da casa reduzem drasticamente as chances de poeira e mofo provocarem o fechamento dos brônquios.
Abandone a Vassoura: Varrer a casa suspende a poeira fina no ar, que permanece flutuando e sendo aspirada pelo paciente. Prefira passar um pano úmido apenas com água ou utilize aspiradores de pó com filtro adequado.
Troque o Cobertor pelo Edredom: Cobertores com pelos acumulam ácaros com extrema facilidade. Edredons de tecido liso e lavável são opções mais seguras.
Quarto Minimalista: Evite o acúmulo de brinquedos, livros abertos e, principalmente, bichos de pelúcia no ambiente onde a criança dorme. Cortinas devem ser lavadas com frequência e as janelas devem ser abertas durante o dia para a entrada de sol e circulação do ar.
Afastamento Total do Tabaco: O fumo passivo é um dos piores agravantes para o pulmão asmático. Isso inclui não apenas o cigarro convencional, mas também a fumaça de cigarros eletrônicos (vapes) e narguilés, cujas substâncias químicas irritam instantaneamente as mucosas respiratórias.
Por fim, os médicos reforçam a importância de toda família construir, junto ao seu médico de referência, um plano de crise por escrito. Saber exatamente quais medicamentos preventivos usar no dia a dia, identificar os primeiros sinais de chiado e ter clareza de quando a medicação de resgate não está funcionando evita idas desnecessárias ou tardias às urgências hospitalares.
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