O Brasil figura historicamente como um dos países que mais produzem pesquisas sobre as desigualdades raciais no mundo. Contudo, mapear os resultados estatísticos da desigualdade (como disparidade salarial ou de escolaridade) não é o mesmo que decifrar o racismo estrutural como o mecanismo causador dessas distorções.
Para preencher essa lacuna metodológica, um grupo de 18 pesquisadores — majoritariamente negros — lançou o Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo). Vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o núcleo nasce com financiamento misto (público e filantrópico) para oxigenar o debate público com dados baseados em evidências científicas e metodologias internacionais de ponta.
Em entrevista à Agência Brasil, o sociólogo e coordenador-geral do Dara, Luiz Augusto Campos, apontou que o país vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que o debate sobre a pauta avançou, a precisão das ferramentas de medição do Estado sofreu retrocessos.
O Apagão e a Fragmentação de Dados: O especialista adverte que o Brasil regrediu no processamento e na liberação de microdados oficiais. Além disso, as pesquisas de opinião e percepção sobre o racismo feitas por diferentes institutos são fragmentadas e não conversam entre si, o que inviabiliza a criação de estimativas de longo prazo (longitudinais).
A Falta de Pesquisas Experimentais: Para isolar o racismo como causa direta de uma desigualdade, a ciência social internacional utiliza experimentos de campo (testes práticos controlados no mercado de trabalho ou no cotidiano urbano). No Brasil, esse tipo de metodologia causal ainda engatinha.
📊 A Meta do Dara: O núcleo atuará em duas frentes complementares: integrar e unificar os bancos de dados de pesquisas de opinião já existentes e importar métodos experimentais robustos para demonstrar de forma empírica como o racismo opera nas engrenagens sociais brasileiras.
Embora as políticas de ações afirmativas (cotas no ensino superior, funcionalismo público e financiamento eleitoral) representem vitórias consolidadas da pressão dos movimentos sociais, o cenário atual impõe novas resistências.
Campos pontua que diversos setores da sociedade têm utilizado o sucesso inicial das cotas como argumento retórico para alegar que o problema já foi solucionado. Essa narrativa tenta blindar e frear o avanço de novas políticas públicas. O papel do Dara será fornecer dados que comprovem não apenas a persistência das barreiras raciais, mas também apontar caminhos técnicos para aperfeiçoar as políticas antirracistas existentes.
A composição majoritariamente negra da equipe do Dara está longe de ser um detalhe casual ou mera coincidência representativa. Ela reflete a própria eficácia histórica das ações afirmativas nas universidades nas últimas décadas.
| Dimensão da Diversidade Científica | Impacto Prático na Produção do Conhecimento |
| Novas Perguntas Acadêmicas | A entrada de pesquisadores pretos e pardos na pós-graduação traz vivências sociais que empurram para a academia objetos de estudo antes negligenciados. |
| Rigor Metodológico | A experiência vivida não substitui a técnica; ela amplia as hipóteses e perspectivas científicas, que são validadas por critérios estatísticos rigorosos e checáveis. |
| Democratização da Ciência | Quebra o monopólio histórico de determinados grupos sociais na posição exclusiva de formulação das narrativas sobre a sociedade brasileira. |
Nome: Luiz Augusto Campos
Formação: Doutor em Sociologia pela Uerj e Professor Associado de Sociologia e Ciência Política no Iesp/Uerj.
Destaque Acadêmico: Bolsista de produtividade do CNPq, ex-coordenador do Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) e pesquisador visitante em instituições globais como Sciences Po (França) e New York University (EUA).
Com o início de suas atividades operacionais, o Dara projeta-se como um hub estratégico para fornecer à sociedade e aos tomadores de decisão relatórios que traduzam o racismo não como uma abstração moral, mas como um dado mensurável e combatível.
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