O feriado de 9 de julho é uma das datas mais marcantes do calendário paulista. Oficializada em todo o estado em 1997, a data relembra a Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo pegou em armas e iniciou uma guerra civil contra o governo central de Getúlio Vargas.
Contudo, por trás dos desfiles cívicos e do ufanismo (orgulho regional exagerado), historiadores modernos apontam que a data carrega uma construção mitológica complexa, misturando o desejo real por uma Constituição com a reação das elites cafeeiras contra as leis trabalhistas da Era Vargas.
Para compreender o que levou São Paulo ao campo de batalha, é preciso acompanhar como a política e a economia do país desmoronaram em um curto intervalo de tempo:
A quebra da Bolsa de Valores de Nova York destrói o mercado internacional de café, principal motor financeiro das elites paulistas, desestabilizando o cenário político nacional.
A Revolução de 1930 destitui o presidente Washington Luís e impede a posse do paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas assume o governo provisório, isola as elites agrárias de São Paulo e passa a nomear interventores (governadores indicados por ele) para gerir o estado.
Durante um protesto violento na Praça da República, contra um partido aliado de Vargas, tropas federais abrem fogo. Quatro jovens morrem na hora: Martins, Miragaia, Camargo e Andrade. Suas iniciais formam o acrônimo M.M.D.C., que vira o símbolo máximo da resistência paulista (um quinto jovem, Alvarenga, morreria meses depois).
O interventor civil Pedro de Toledo rompe oficialmente com Getúlio Vargas. São Paulo declara guerra ao governo federal e mobiliza milhares de voluntários civis e militares para expulsar as tropas aliadas do Rio de Janeiro.
Isolado e sem o apoio militar prometido por outros estados, São Paulo é sufocado pelas forças federais e assina a rendição após quase três meses de combates intensos.
Sessenta e cinco anos após o conflito, o governador Mário Covas sanciona a lei que transforma o 9 de julho em feriado estadual em São Paulo.
A narrativa tradicional que se consolidou nos livros de história e na imprensa paulista repousa sobre a ideia de que "São Paulo perdeu militarmente, mas venceu politicamente", uma vez que Vargas acabou promulgando uma nova Constituição Federal em 1934. No entanto, pesquisas históricas recentes, como a do professor Francisco Quartim de Moraes (USP), jogam luz sobre os bastidores menos idealizados do movimento.
O outro lado de 1932: Por trás do belo discurso em defesa da legalidade e da democracia, parte expressiva da oligarquia cafeeira e industrial paulista estava profundamente incomodada com as transformações sociais trazidas pelo novo regime. Havia um medo latente de uma "revolução social" ou do comunismo. O alvo real de muitos líderes do movimento era combater as recém-criadas leis de cunho social e os direitos trabalhistas (como o salário mínimo e a jornada regulamentada) e, inclusive, a participação política das mulheres e o sufrágio feminino, que ganhavam espaço com o governo Vargas.
Além disso, o movimento abrigou correntes ideológicas variadas. Embora a maioria dos voluntários acreditasse estar lutando genuinamente pela liberdade e contra uma ditadura, as lideranças intelectuais do levante incluíam desde defensores radicais da separação de São Paulo do resto do Brasil até pensadores com inclinações anticomunistas, fascistas e racistas.
A decisão de transformar o 9 de julho em um feriado oficial em 1997, durante a gestão de Mário Covas, não ocorreu por acaso. Ela atendeu a um propósito político bem específico daquela década.
Naquele período, o Brasil vivia a era das privatizações e da abertura de mercado sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O grupo político que governava tanto o país quanto o estado de São Paulo tinha como meta ideológica e econômica desmantelar o modelo de Estado forte, centralizador e estatista herdado justamente da Era Vargas.
Dessa forma, oficializar o feriado de 1932 foi uma maneira simbólica de reativar a memória do sacrifício da juventude paulista e, nas palavras de analistas políticos, ajudar a "enterrar o varguismo", promovendo uma identidade regional baseada no liberalismo econômico e no protagonismo histórico de São Paulo frente ao restante do país.
Rádio ao vivo