tvserradosbrindesoficial@gmail.com

China Expande "Trilhos Financeiros" na África, mas Dólar Mantém Hegemonia

Por Redação TV SDB
06/07/2026 - Atualizado às 12:25


Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

A China está expandindo silenciosamente sua infraestrutura financeira no continente africano com um objetivo claro: criar canais comerciais que não dependam do dólar norte-americano. A estratégia permite que bens e serviços sejam liquidados diretamente usando moedas locais africanas e o yuan (a moeda chinesa).

No entanto, analistas e dados de mercado apontam que uma desdolarização global ainda está longe do horizonte. O uso do yuan continua minoritário e a transição deve ser longa.

Os Novos Mecanismos e o Peso Comercial

A aproximação financeira ganhou um impulso prático importante no fim de junho de 2026, quando o Banco Central da China autorizou o pagamento direto em yuan através do Standard Bank — o maior grupo bancário da África, com presença em 21 países —, em uma parceria estratégica com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

Essa engrenagem financeira encontra forte respaldo nos dados comerciais:

  • Parceria Líder: A China é a principal parceira comercial da África. Entre 2000 e 2024, o comércio entre as duas regiões cresceu, em média, 14% ao ano.

  • Incentivo Recente: Em 1º de maio deste ano, Pequim passou a isentar de taxas as importações de diversos produtos africanos, o que deve estreitar ainda mais esses laços.

O Yuan no Cenário Global: "Construindo os Trilhos"

Apesar do avanço institucional, o peso real do yuan nas transações diárias ainda é modesto. Segundo o analista geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, as grandes commodities (produtos básicos globais) de energia e alimentos continuam sendo cotadas e negociadas majoritariamente na moeda norte-americana.

"O yuan é hoje a quinta moeda de comércio mundial, com cerca de 8,5% das transações globais. O montante ainda é irrelevante considerando o tamanho da economia global. É como se a China estivesse construindo os trilhos para o trem-bala passar no futuro." — Marco Fernandes, analista geopolítico.

Por que a própria China hesita em acelerar o processo?

Engana-se quem pensa que Pequim quer derrubar o dólar do dia para a noite. Uma desvalorização abrupta da moeda americana não interessa aos chineses por três fatores estruturais:

  1. Reservas Bilionárias: O Estado e as empresas chinesas guardam volumes gigantescos de suas reservas em dólares. Uma queda súbita da moeda causaria um prejuízo financeiro colossal para a própria China.

  2. Competitividade de Exportação: A China precisa controlar artificialmente o valor do yuan para garantir que seus produtos manufaturados continuem baratos e competitivos no mercado internacional.

  3. Fechamento da Conta de Capitais: Para o yuan virar uma moeda global plena, a China precisaria abrir sua conta de capitais (o fluxo livre de entrada e saída de dinheiro do país). O governo evita fazer isso para blindar seu sistema financeiro interno contra ataques especulativos e crises globais.

A Alternativa do Sul Global: Uma Cesta de Moedas

A insatisfação com a hegemonia do dólar é uma pauta frequente no Brics, bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países do Sul Global. O principal argumento é que a centralidade do dólar dá superpoderes políticos aos EUA (que conseguem aplicar sanções e embargos econômicos unilaterais) e gera instabilidade nos países em desenvolvimento. Toda vez que o Banco Central americano sobe os juros para controlar a inflação interna, moedas de países mais pobres desvalorizam, encarecendo a importação de alimentos básicos e gerando crises inflacionárias.

Como resposta a esse impasse, o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr. (ex-vice-presidente do banco do Brics) propôs uma saída diferente de apenas trocar o dólar pelo yuan. A sugestão é criar uma nova unidade de conta internacional, gerida por um grupo de países do Sul Global. Essa moeda seria baseada em uma "cesta" ponderada com as moedas de várias nações parceiras, distribuindo o peso político e econômico de forma mais equilibrada e segura.



Deixe seu comentário

Os comentários estão desativados.


Logo player Rádio ao vivo