Em julho de 2025, o Brasil alcançava um marco histórico ao deixar formalmente o Mapa da Fome da ONU, registrando menos de 2,5% de sua população sob o risco de subnutrição. Agora, em julho de 2026, o país completa exatamente um ano fora desse índice crítico.
Embora o cenário atual represente o menor patamar da série histórica e garanta segurança alimentar plena para 77% dos brasileiros, a batalha ainda não está totalmente vencida: cerca de 6,5 milhões de pessoas continuam enfrentando a insegurança alimentar grave em território nacional.
Para entender a complexidade do problema, pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP desenvolveram o MUFII (Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar), publicado na revista Sustainability. O índice avalia a fome a partir de 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável.
O contraste regional: Os dados históricos consolidados do índice mostram que Santa Catarina ostenta os menores níveis de insegurança alimentar do país.
Alerta no Norte e Nordeste: Estados como Maranhão, Acre e Amazonas registram os piores índices. De forma geral, a maior parte dos estados dessas duas regiões apresenta taxas acima de 50% de insegurança alimentar multidimensional, o que exige um olhar governamental descentralizado.
De acordo com a diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), Semíramis Domene, a conquista brasileira não se deve apenas à distribuição de alimentos, mas sim a um esforço coordenado em três grandes frentes intersetoriais:
A base para a erradicação da fome passa pela capacidade financeira das famílias. O Brasil atingiu o seu menor índice de desemprego em 13 anos, impulsionado por uma política de valorização do salário mínimo, que acumulou reajustes reais superiores a 6% a partir de 2022.
Garantir o colchão social foi o segundo passo. A reestruturação e ampliação do Bolsa Família permitiram que milhões de lares recuperassem o poder de compra. Esse avanço foi amparado pela modernização do Cadastro Único (CadÚnico) realizada em 2025 e pelo fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A mesa do brasileiro depende diretamente de quem produz. O governo reativou e fortaleceu o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que apoia diretamente a agricultura familiar, encurtando a distância entre o campo e os centros urbanos, tratando o alimento por sua função social e não apenas como commodity.
A grande preocupação de economistas e cientistas sociais é blindar essas conquistas para que o Brasil não retroceda no futuro.
“Termos alcançado esse marco, pela segunda vez, é resultado de uma intersetorialidade muito forte entre as políticas públicas. O combate à insegurança alimentar envolve a garantia de uma estrutura complexa: renda mínima, educação, acesso à água, esgotamento sanitário, segurança e emprego.” — Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome.
O economista Daniel Duque, do Ibre/FGV, acrescenta que um fator macroeconômico crucial jogou a favor do bolso dos brasileiros nos últimos anos: além da melhora do mercado de trabalho, o preço dos alimentos registrou uma forte desaceleração em relação à inflação geral entre 2023 e 2025, fruto de safras agrícolas recordes no país.
A prioridade atual do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), por meio do Plano Brasil sem Fome, concentra-se em mapear e incluir ativamente os 6,5 milhões de cidadãos restantes nas redes de assistência locais, consolidando a alimentação saudável e de qualidade não como um benefício temporário, mas como um direito constitucional permanente.
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