Em uma cerimônia carregada de emoção na Universidade de Brasília (UnB), o governo brasileiro emitiu um pedido público de desculpas pelo desaparecimento forçado de Paulo de Tarso Celestino da Silva. O ato simbólico reuniu familiares, ex-colegas de faculdade, a comunidade acadêmica e membros das comissões de Anistia e de Mortos e Desaparecidos Políticos, marcando um passo importante na reparação histórica das vítimas da repressão militar.
A iniciativa, conduzida pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, busca conferir dignidade à memória do ex-estudante e estender a reparação a toda a sociedade civil, afetada pelas marcas do autoritarismo.
Natural de Morrinhos (GO), Paulo de Tarso tinha uma trajetória profundamente ligada à resistência política da época:
Origem e Formação: Era filho de Pedro Celestino da Silva, deputado federal que teve seus direitos cassados pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5). Paulo formou-se em Direito pela UnB em 1969 e chegou a cursar pós-graduação na Universidade de Sorbonne, na França.
Militância: Atuava como militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) no combate ao regime militar.
O Desaparecimento: Em 12 de julho de 1971, aos 27 anos, foi capturado por agentes do DOI-CODI do I Exército no Rio de Janeiro, junto com a ativista Heleny Ferreira Telles Guariba. Desde então, nunca mais foi visto. Ele foi oficialmente considerado morto pelo Estado brasileiro apenas em 1995, por meio da Lei 9.140.
O paradeiro e o sofrimento de Paulo de Tarso começaram a ser desvendados graças ao depoimento histórico de Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do centro clandestino de tortura mantido pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE) em Petrópolis (RJ), conhecido como a "Casa da Morte".
De acordo com os relatos, o ex-estudante de Direito foi submetido a mais de 48 horas ininterruptas de torturas severas, incluindo o uso do pau-de-arara e métodos de desidratação forçada, onde foi obrigado a consumir grandes quantidades de sal enquanto suplicava por água. Investigações posteriores das Comissões da Verdade apontaram que os corpos dos opositores executados naquele local eram esquartejados e ocultados para impedir permanentemente qualquer tentativa de identificação dos restos mortais.
Durante o evento, autoridades destacaram que a redemocratização não apagou automaticamente as sequelas deixadas pela violência de Estado.
“O seu desaparecimento representa uma das faces mais cruéis da violência praticada pelo Estado durante a ditadura militar. A ausência de respostas sobre o seu destino ainda impede a sua família de exercer plenamente o seu direito ao luto e desafia toda a sociedade brasileira na busca pela verdade e pela memória. O fim da ditadura militar não significou o fim dos seus efeitos.” — Janine Melo, ministra dos Direitos Humanos e Cidadania.
A reitora da UnB, Rozana Naves, relembrou as recorrentes invasões e agressões sofridas pelas universidades públicas durante os anos de chumbo, apontando que o legado de Paulo de Tarso se traduz hoje na trincheira diária pela autonomia universitária e pelo livre debate de ideias. “Estar aqui hoje é reconhecer uma ausência, mas também reconhecer uma presença. A presença de uma memória que segue nos convocando para defender com coragem aquilo que sustenta uma universidade pública: liberdade, pensamento crítico e democracia”, concluiu.
Rádio ao vivo