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Reparação e Memória: Restos mortais de vítima da ditadura são sepultados após 54 anos

Por Redação TV SDB
27/06/2026 - Atualizado às 11:48


Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

Em uma cerimônia marcada por forte emoção, os restos mortais de Grenaldo de Jesus da Silva, assassinado pelo regime militar em 1972, foram finalmente sepultados por sua família na manhã de sexta-feira (26). O ato ocorreu no Cemitério Dom Bosco, em Perus (São Paulo), justamente no Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura.

Enterrado originalmente como indigente em uma vala clandestina, Grenaldo recebeu uma despedida digna sob o som da música "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", de Geraldo Vandré, entoada por familiares, militantes de direitos humanos e autoridades. Seu filho, Grenaldo Mesut, deixou uma coroa de flores com a mensagem: "Descanse em paz, pai!".

Quem Foi Grenaldo Silva e a Farsa do Estado

A trajetória de Grenaldo simboliza a violência institucional da época e a longa busca por justiça:

  • A Origem: Nascido em São Luís (MA), era militar da Marinha. Foi preso e expulso da corporação em 1964 por liderar reivindicações por melhores condições de trabalho.

  • O Assassinato (1972): Após viver na clandestinidade, foi morto em 30 de maio de 1972 durante uma tentativa de captura de uma aeronave no Aeroporto de Congonhas (SP).

  • A Farsa Oficial: O regime militar divulgou à imprensa que ele havia se suicidado. As circunstâncias reais só foram descobertas em 2003, em reportagem da jornalista Eliane Brum, que revelou que Grenaldo foi executado por agentes do Estado com tiros na nuca e no peito.

  • O Ocultamento: Seu corpo foi jogado sem identificação na vala de Perus em junho de 1972, onde permaneceu oculto por décadas.

A Vala Clandestina de Perus e a Lenta Identificação

A vala onde Grenaldo estava foi descoberta em 1990 pelo jornalista Caco Barcellos, que investigava a violência policial. Ao analisar fichas do IML, ele notou que corpos enviados pelo DOPS vinham marcados com a letra "T" (de "terrorista") a lápis vermelho.

As escavações na época revelaram 1.049 ossadas misturando vítimas de esquadrões da morte, indigentes e presos políticos. Contudo, o processo de identificação enfrentou décadas de lentidão institucional:

  • Negligência Estatal: O Estado brasileiro chegou a pedir desculpas oficiais aos familiares em 2025 pelo abandono das investigações entre os anos de 1990 e 2014.

  • Poucos Identificados: Das 42 prováveis vítimas da ditadura enterradas ali, apenas seis foram formalmente identificadas até hoje. O nome de Grenaldo foi confirmado em abril de 2025 por meio do Projeto Perus, liderado pela Unifesp.

Significado Político e Histórico

O sepultamento foi viabilizado pelo esforço conjunto da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Cemdp), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense (Caaf/Unifesp).

A ministra dos Direitos Humanos, Janine Mello, compareceu ao evento e garantiu que o governo federal manterá os investimentos para identificar as demais ossadas:

"A gente quer garantir não só o direito à memória, mas à verdade, à reparação e à justiça. Isso mostra o compromisso do nosso governo em não aceitar que a tortura seja uma prática possível dentro do nosso país em nenhum outro momento."

Uma grande placa com a foto de Grenaldo e um resumo de sua história foi fixada no túmulo definitivo para preservar o registro histórico, acompanhada do desabafo final gravado por seu filho na lápide: "Podia ser diferente, não é, meu pai?".



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