Uma descoberta científica extraordinária colocou a Bacia do Araripe, no Ceará, mais uma vez no centro dos holofotes da paleontologia mundial. Um grupo internacional de pesquisadores identificou um mecanismo inédito de fossilização que permitiu a preservação tridimensional de tecidos moles e até de esteroides — moléculas orgânicas extremamente frágeis — em um pterossauro do período Cretáceo.
O estudo, publicado na prestigiada revista iScience, revela que o segredo por trás dessa conservação impecável, que resistiu a mais de 110 milhões de anos, foi a ação relâmpago de colônias de bactérias.
Em condições normais, tecidos moles e compostos orgânicos desaparecem em questão de dias após a morte de um animal. Para desvendar como esse milagre geológico aconteceu na Formação Romualdo, cientistas de 15 instituições do Brasil, Austrália, Alemanha e Estados Unidos utilizaram tomografia 3D, geoquímica avançada e microscopia eletrônica.
O processo funcionou como uma reação em cadeia perfeitamente sincronizada:
Microambiente químico: A decomposição inicial do corpo do pterossauro alterou a química da água ao seu redor.
Banquete bacteriano: Essa mudança atraiu bactérias específicas que oxidam o enxofre.
Mineralização relâmpago: A atividade desses microrganismos desencadeou uma precipitação em massa de minerais (sulfatos, fosfatos e carbonatos).
Selamento perfeito: Essa camada mineral solidificou-se rapidamente, encapsulando e protegendo as estruturas celulares e moleculares antes que elas pudessem apodrecer.
Os pterossauros foram os primeiros vertebrados a dominar o voo motorizado, vivendo lado a lado com os dinossauros. O exemplar encontrado pertence ao grupo dos Anhangueridae e impressiona pelo porte: tinha cerca de 8 metros de envergadura (abertura alar).
Além do tamanho, o fóssil trouxe uma revelação inédita sobre os hábitos desses répteis voadores. Pela primeira vez na história, foram detectados traços de esteroides associados a um pterossauro. A presença dessas moléculas orgânicas reforça a teoria de que a dieta dessas criaturas na antiga Lagoa do Araripe era baseada no consumo de peixes ou lulas.
O achado reforça o valor patrimonial e científico do Nordeste brasileiro. O fóssil está depositado no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, no Ceará. O trabalho de ponta foi viabilizado por uma parceria de longa data entre o Museu Nacional/UFRJ e a Universidade Regional do Cariri (URCA), desta vez expandida para o cenário global sob a liderança da Universidade Curtin, na Austrália, e com financiamento do CNPq através do programa INCT Paleovert.
“A preservação desse pterossauro é extraordinária. O fato de termos acesso a esse nível de detalhe, mais de 100 milhões de anos depois, mostra como a Bacia do Araripe é um dos sítios fossilíferos mais importantes do planeta”, destaca o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional/UFRJ, um dos autores do estudo.
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