Em uma visita oficial ao Haiti, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, fez um apelo contundente à comunidade internacional, afirmando que o mundo não tem o direito de ignorar a emergência humanitária no país caribenho. Classificada por ele como a crise mais grave em curso no Hemisfério Ocidental — e a que se deteriora mais rapidamente —, a situação haitiana padece tanto com a violência interna quanto com o esquecimento das grandes potências.
Durante a agenda, Guterres visitou acampamentos de refugiados internos, alinhou suporte logístico com a força internacional que combate as facções locais e reuniu-se com o primeiro-ministro, Alix Didier Fils-Aimé, para cobrar celeridade na transição política do país.
A ausência de segurança pública desestruturou o cotidiano dos 12 milhões de habitantes do Haiti, concentrando os impactos mais severos sobre mulheres e crianças.
Insegurança Alimentar: 6 milhões de pessoas (metade da população total) enfrentam dificuldades severas para se alimentar.
Refugiados Internos: A violência urbana já expulsou 1,5 milhão de haitianos de suas casas.
Balanço de Sangue (Apenas este ano): Os confrontos armados deixaram mais de 2,3 mil mortos e 1,1 mil feridos.
Infâncias Roubadas: O recrutamento de menores por gangues triplicou em apenas um ano.
Violência de Gênero: O país registra uma média alarmante de mais de 20 mulheres e meninas agredidas sexual ou fisicamente todos os dias.
O cenário político do Haiti segue travado. O país é governado por Alix Didier Fils-Aimé, que conta com o respaldo dos Estados Unidos, mas a nação não realiza eleições desde 2016. Esse vácuo de poder permitiu que coalizões de grupos armados assumissem o controle territorial de bairros inteiros da capital, Porto Príncipe.
Para piorar o quadro, as agências internacionais esbarram na falta de orçamento para prestar socorro humanitário. A meta estipulada pela ONU para o plano de resposta deste ano é de US$ 880 milhões, mas, até o momento, os países doadores repassaram apenas 25% desse valor.
"O Haiti não está pedindo caridade, mas que o mundo cumpra sua palavra em um momento em que não pode esperar", desabafou Guterres. Apesar do cenário hostil, o secretário-geral apontou que o Estado começou a dar sinais tímidos de retomada gradual de territórios antes dominados pelas gangues.
O secretário-geral da ONU também aproveitou o espaço para comentar um episódio recente de censura esportiva que indignou os haitianos. A Fifa forçou a seleção de futebol do Haiti a alterar seu uniforme de jogo para a Copa do Mundo, proibindo a utilização de uma camisa que trazia uma ilustração histórica de revolucionários empunhando a bandeira nacional.
A estampa fazia alusão à Batalha de Vertières (1803), um marco global onde pessoas negras escravizadas derrotaram os colonizadores franceses, culminando na Independência do Haiti. A Fifa alegou que o desenho violava os regulamentos internos da competição sobre mensagens políticas ou históricas em uniformes.
Guterres usou o gancho histórico para elogiar a resiliência da população: "Em 1803, na Batalha de Vertières, o povo haitiano conquistou o impossível ao quebrar suas correntes e se libertar. Esse mesmo espírito vive hoje. Por trás dos números, existe um povo de coragem admirável que se recusa a se curvar diante da violência".
O Haiti entra em campo para responder dentro das quatro linhas nesta sexta-feira (19), às 21h30, justamente contra a Seleção Brasileira.
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