Um amplo estudo conduzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Movimento Pessoas à Frente e a Fundação Lemann, jogou luz sobre o verdadeiro perfil da alta liderança da administração pública federal brasileira. Divulgada nesta terça-feira (16), a pesquisa Lideranças Públicas no Brasil analisa dados de 1999 a 2025 e revela que, embora mulheres e negros estejam ganhando espaço, o topo da pirâmide estatal ainda ostenta uma forte desigualdade de gênero e raça.
Por outro lado, o levantamento desconstrói o senso comum de que o alto escalão é movido puramente por indicações partidárias sem critérios técnicos, revelando a existência de uma elite burocrática experiente e altamente profissionalizada.
Embora os avanços tenham se intensificado a partir de 2022 — com as mulheres alcançando perto de 40% dos cargos de direção atualmente —, a série histórica (1999–2025) mostra que o topo do serviço público ainda não espelha a pluralidade da sociedade brasileira.
O papel do recrutamento externo: Os pesquisadores apontaram que ministérios finalísticos (como Igualdade Racial e Mulheres) são os principais indutores de diversidade. Além disso, as contratações de profissionais de fora da carreira pública servem como porta de entrada para minorias, embora esse tipo de recrutamento tenha caído desde 2004 devido a leis que exigem percentuais mínimos de servidores de carreira nas chefias.
O estudo As Várias Faces da Burocracia Dirigente desmonta a ideia de que o topo do funcionalismo público federal é composto majoritariamente por apadrinhados políticos sem qualificação. Os dados focados nos antigos cargos DAS-5 e de Natureza Especial (secretarias executivas, presidências de autarquias e diretorias) mostram um perfil técnico sólido:
Predomínio de Concursados: 63% dos ocupantes do alto escalão são servidores públicos de carreira.
Baixa Filiação Partidária: Apenas 16% dos dirigentes estão formalmente filiados a algum partido político.
Bagagem Prévia: 75% dos nomeados já possuíam experiência anterior no setor público antes de assumir cargos diretivos.
Escolaridade Alta: 86% possuem ensino superior completo (embora apenas 10% tenham pós-graduação).
Ascensão Gradual: O acesso ao topo é fruto de maturidade profissional. Em média, os ocupantes de cargos DAS-5 têm 8 anos e 4 meses de experiência prévia em funções comissionadas; nos cargos de nível 6 (DAS-6), essa média sobe para 9 anos e meio.
À primeira vista, os cargos de chefia no governo federal parecem altamente instáveis: 57% dos mandatos duram até dois anos, e 37% não passam do primeiro ano. No entanto, a pesquisa Perda ou Circulação de Lideranças? prova que essa aparente volatilidade é, na verdade, uma circulação interna de talentos.
Sobrevivência na Liderança: Após deixarem um cargo de direção, 79% dos profissionais continuam em posições de liderança em outro órgão do governo após dois anos; 55% continuam após quatro anos.
Retenção de Talentos: 80% dos servidores que saem de uma chefia permanecem trabalhando no setor público no ano seguinte.
O Efeito Bumerangue: Nada menos que 44% dos dirigentes retornam ao mesmo órgão público que haviam deixado no passado, trazendo consigo uma bagagem externa acumulada.
Essa dinâmica garante que o Estado brasileiro mantenha uma "memória institucional" viva e profissionalizada, mitigando o impacto das trocas de governo.
O coordenador-geral da pesquisa, Felix Lopez, ressalta que a engrenagem do Executivo Federal opera em uma zona cinzenta produtiva, longe dos extremos ideológicos do debate público.
"Geralmente, os debates sobre os cargos públicos transitam entre dois extremos. De um lado, a concepção dos cargos como um cimento de coalizão política e trocas partidárias, preenchidas por aliados sem experiência, em detrimento de eficiência e continuidade administrativa. No outro extremo, celebra-se o mérito de uma burocracia essencialmente técnica e profissional que formula e implementa políticas independentemente de pressões políticas de plantão. O problema é que nenhuma dessas duas imagens se aproxima de uma realidade que é muito mais complexa. No ponto mais alto da burocracia há uma convergência entre as demandas da autoridade política e o funcionamento cotidiano do Estado."
As versões finais das três análises serão publicadas em breve em uma edição temática do Boletim de Análise Político-Institucional (Bapi), no site do Ipea, servindo como base para futuras discussões sobre a modernização e capacidade de inovação do Estado brasileiro.
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