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Memória da Imprensa: Edições Regionais de O Pasquim Ganham Acervo Digital Completo

Por Redação TV SDB
15/06/2026 - Atualizado às 01:24


Imagem: Pasquim/Reprodução

As edições de São Paulo e do Rio Grande do Sul do histórico jornal alternativo O Pasquim ganharam um acervo digital na Biblioteca Nacional Digital. Estão disponíveis para consulta pública 98% dos exemplares produzidos fora do eixo fluminense — um total de 114 edições —, somando-se às 1.072 edições originais do Rio de Janeiro que já integravam a plataforma.

A digitalização celebra os 40 anos da expansão do tabloide, ocorrida em 1986. Naquele momento, o país vivia a efervescência da abertura política, o lançamento do Plano Cruzado, o fim da linha de produção do Fusca e o impacto global do acidente de Chernobyl.

O Retrato de Duas Praças: São Paulo vs. Rio Grande do Sul

Embora herdassem a veia irreverente, transgressora e contracultural da matriz carioca — consagrada por nomes como Millôr Fernandes, Henfil, Ziraldo e Paulo Francis —, as sucursais de São Paulo e do Rio Grande do Sul adaptaram esse DNA para focar em pautas estritamente locais.

A edição de São Paulo, idealizada por Paulo Markun ao lado de Manoel Canabarro e Dante Matiussi, espelhou diretamente a efervescência política do fim da ditadura militar. O jornal adotou uma postura firmemente contrária ao político Paulo Maluf, unindo colaboradores que apoiavam desde o PT de Eduardo Suplicy até o PMDB de Orestes Quércia. Essa ebulição ideológica rendeu episódios marcantes, como uma briga pública nas páginas do tabloide entre os renomados jornalistas Alberto Dines e Fernando Morais por conta de divergências no apoio a candidatos ao governo estadual. A praça paulista contou com o talento de nomes de peso como Laerte, Marangoni, Régis, Jô Soares, Augusto Nunes e Gabriel Priolli. No entanto, enfrentou sérias dificuldades financeiras, já que a venda avulsa ficou aquém do esperado e o empresariado local resistia em anunciar na publicação por receio do histórico polêmico da marca.

Por outro lado, a edição do Rio Grande do Sul nasceu do ímpeto de Flávio Braga, que viajou até o Rio de Janeiro para convencer o cartunista Jaguar a autorizar uma sucursal gaúcha. Com redação sediada em Porto Alegre, a publicação manteve o tom satírico e provocativo da matriz, mas direcionou suas críticas a aspectos comportamentais e ao tradicional estereótipo do "macho sulino", o que gerou debates intensos e confrontos de opinião na região. O Pasquim Sul reuniu um time de grandes talentos locais, incluindo os cartunistas Edgard Vasquez, Santiago, Bier e Canini, além do jornalista Reverbel. Diferente da experiência paulista, a operação gaúcha conseguiu estruturar uma subsistência financeira um pouco mais estável no período, sustentando-se por meio de parcerias estratégicas e do apoio de anunciantes de peso, como a extinta companhia aérea Varig.

O Desafio da Sobrevivência no Pós-Ditadura

Apesar do entusiasmo dos jornalistas envolvidos, ambas as edições regionais duraram pouco mais de um ano. A subsistência financeira e o novo cenário de redemocratização do país ditaram o fim precoce dos projetos.

Durante o regime militar, O Pasquim carioca mantinha-se de forma lucrativa quase exclusivamente pelas vendas avulsas nas bancas, chegando a atingir a marca de 200 mil exemplares por edição. Em 1986, o mercado havia mudado drasticamente. Havia forte resistência do empresariado em associar suas marcas ao jornal devido ao seu histórico polêmico e irreverente.

Somado a isso, o fim da censura impôs uma crise de identidade a toda a imprensa alternativa da época.

"A imprensa tradicional já abria espaço para debates e discussões anteriormente proibidas, então, sobrava uma franja muito reduzida para a gente operar." — Paulo Markun, jornalista e líder da edição paulista.



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