O avanço dos extremos climáticos aliado à lentidão na regularização fundiária está colocando em risco a segurança alimentar, a economia e a identidade cultural de diversas comunidades quilombolas no Brasil. O alerta foi o ponto central do Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, realizado no Gama (DF), onde a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou o livro “Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima”.
O diagnóstico mostra que, do Nordeste ao Centro-Oeste, a variação brusca entre secas prolongadas e temporais devastadores tem sufocado a agricultura familiar tradicional, forçando moradores a abandonar a terra em busca de emprego nas áreas urbanas.
Para entender como a crise climática e a pressão do agronegócio se manifestam na ponta, o estudo detalha a realidade de três territórios brasileiros que enfrentam desafios urgentes.
Na comunidade de Nova Esperança, em Baraúna (RN), o sustento das famílias gira em torno do cultivo da goiaba, de frutas e hortaliças, além da produção de geleias. Hoje, esse modo de vida sofre com a alternância entre secas severas e temporais violentos que destroem as estradas de terra, deixando a região isolada. Para piorar, a falta de água regular e o esgotamento do poço artesiano local tornam a produção agrícola e o dia a dia das 70 famílias uma tarefa cada vez mais difícil.
Já no quilombo Mesquita, localizado na Cidade Ocidental (GO), o grande símbolo de resistência cultural e econômica é o cultivo do marmelo, transformado artesanalmente em marmelada e compotas. No entanto, as longas estiagens reduziram drasticamente tanto a quantidade quanto o tamanho dos frutos colhidos. Além do fator ambiental, a comunidade sofre com o avanço dos produtores de soja, que se aproveitam da falta de titulação oficial do território para tentar se apropriar de terras que pertencem historicamente às 785 famílias da região.
Por fim, na comunidade Divino Espírito Santo (popularmente conhecida como Divino Beiju), em São Mateus (ES), a tradicional produção do beiju artesanal está sob forte ameaça. O caos climático provocou uma redução drástica na colheita da mandioca, base da economia local. Somado a isso, as mais de 300 famílias precisam lutar constantemente para proteger suas lavouras do impacto e da contaminação por agrotóxicos pulverizados pelos fazendeiros de monoculturas vizinhas.
Escrito sob a liderança da agrônoma e pesquisadora Fran Paula, o livro de 120 páginas denuncia o impacto de grandes empreendimentos — incluindo usinas de energia eólica, explorações de petróleo, mineração e monoculturas — que invadem os limites quilombolas e desestruturam seus ecossistemas.
A obra introduz e esmiúça o conceito de racismo ambiental, apontando que as comunidades tradicionais e periféricas são as que mais sofrem com a degradação gerada pelo desenvolvimento industrial, sem desfrutar de seus bônus econômicos. Por estarem na linha de frente e permanecerem nos territórios em tempo integral, as mulheres são as primeiras a identificar as mudanças ecológicas e as principais articuladoras de estratégias de vigilância ambiental e resistência.
A preservação dos biomas brasileiros passa obrigatoriamente pela salvaguarda jurídica de quem protege a terra historicamente. No quilombo Mesquita (GO), por exemplo, as 785 famílias aguardam a demarcação definitiva do território, cujos estudos antropológicos foram concluídos pela Fundação Cultural Palmares ainda em 2006. A falta do documento definitivo abre brechas para conflitos fundiários com o avanço da soja.
A urgência na tramitação desses processos é vista por especialistas e lideranças como a única saída real para mitigar os efeitos do aquecimento global.
“Não existe justiça climática sem território garantido, sem titularização para esses territórios que precisam ser protegidos.” — Fran Paula, pesquisadora em saúde e meio ambiente e integrante da Conaq.
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