A área de defesa e a segurança estratégica consolidam-se como os principais nós górdios da diplomacia nacional para os próximos anos. Durante a 2ª Conferência Nacional Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada na Universidade Federal do ABC (UFABC), Audo Faleiro, assessor-chefe adjunto da Presidência da República, alertou que o país precisa abandonar a postura reativa diante de um cenário global de expansão de conflitos e da recente ação militar dos Estados Unidos na Venezuela.
Embora Faleiro descarte qualquer ameaça imediata às reservas do pré-sal ou ao programa nuclear brasileiro, ele pontua que a movimentação norte-americana na região — cujo foco foi assumir o controle do petróleo venezuelano — acendeu um alerta de vulnerabilidade que obriga o Brasil a repensar seu papel dissuasório.
O assessor expôs um impasse ideológico que historicamente trava o desenvolvimento do setor militar no país: de um lado, a ala que defende que o Brasil é uma nação pacífica por natureza e que, por isso, dispensaria gastos bélicos; de outro, aqueles que argumentam que a disparidade tecnológica em relação às superpotências é tão vasta que nenhum investimento seria capaz de reduzi-la.
Faleiro contrapõe essa visão citando tensões internacionais recentes:
“Conflitos assimétricos, como o dos Estados Unidos e Irã, mostraram (...) que nem sempre o mais forte vence, desde que você tenha uma capacidade de dissuasão bem feita. Acho fundamental pensar a nossa situação em matéria de defesa, o Brasil é muito vulnerável, isso é evidente.”
Para além do rearranjo militar, a Assessoria Especial da Presidência elencou seis áreas críticas que demandarão investimentos massivos e novas regulamentações até o fim da década:
Defesa Nacional: Estruturação de uma política de dissuasão eficiente e debate sobre financiamento do setor.
Minerais Críticos e Terras Raras: O Brasil é o segundo maior detentor desses recursos no mundo, mas opera com um arcabouço regulatório defasado. A gestão atual estuda criar um Conselho Nacional de Minerais Críticos vinculado diretamente à Presidência.
Soberania Digital: O país perdeu o início da corrida tecnológica global e agora corre contra o tempo, necessitando de aportes financeiros robustos para recuperar o atraso regulatório e de infraestrutura.
Combate ao Crime Organizado Transnacional: Alerta para evitar o uso político do tema. O assessor lembrou a vitória estratégica do Brasil ao eleger um delegado da Polícia Federal para a chefia da Interpol, defendendo que o país lidere uma agenda unificada na América Latina.
Reconstrução de Laços com a África: Após uma década de distanciamento, o Brasil tenta retomar a cooperação técnica, mas encontra um continente hoje ocupado por novos atores internacionais com ferramentas diplomáticas mais agressivas.
Integração da América Latina: Cenário de paralisia institucional na Unasul e na Celac, provocado pelo isolamento ideológico de governos como o de Javier Milei (Argentina) e pelo "veto cruzado" resultante do processo eleitoral venezuelano de 2024.
Audo Faleiro também teceu duras críticas à nova configuração dos BRICS, que passou a abrigar novos membros (como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, Etiópia e Irã). Para o assessor, a ampliação do bloco travou a capacidade de articulação política do grupo.
A inclusão de nações com rivalidades históricas e em pleno conflito militar direto — caso de Irã e Emirados Árabes Unidos — inviabilizou o consenso. Como reflexo prático, Faleiro destacou a incapacidade crônica do bloco de emitir uma declaração conjunta sequer sobre as crises e conflitos vigentes no Oriente Médio.
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