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Fitópolis e Cidades-Jardim: Pesquisadores Defendem a Integração das Florestas ao Urbanismo Moderno

Por Redação TV SDB
14/06/2026 - Atualizado às 15:18


Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

As grandes metrópoles globais precisam urgentemente parar de dar as costas para o meio ambiente e passar a incorporar as florestas em seu planejamento urbano. Essa foi a principal tese defendida por cientistas, arqueólogos e ativistas durante a 3ª edição do Seminário Internacional Transmutar, realizado no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).

Inspirados tanto na inteligência biológica das plantas quanto no modelo de civilizações antigas que habitaram a Amazônia, os especialistas propõem uma mudança radical na forma como construímos e vivemos nas cidades para enfrentar a crise climática.

O Conceito de Fitópolis: Cidades Inspiradas nas Plantas

O neurobiólogo italiano Stefano Mancuso, referência internacional no estudo da inteligência vegetal e fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença, apresentou o conceito de fitópolis. A ideia propõe transformar as cidades em organismos urbanos resilientes, espelhando a organização sofisticada das plantas.

Para Mancuso, uma fitópolis ideal deve seguir metas claras:

  • Cobertura Vegetal Elevada: Pelo menos 60% de área verde espalhada pela cidade, incluindo plantas dentro dos edifícios.

  • Substituição do Asfalto: Reduzir em pelo menos 20% o asfalto das ruas, trocando-o por áreas arborizadas para melhorar drasticamente a qualidade de vida.

  • Transição Energética Extrema: Eliminar completamente os veículos movidos a combustão, operando apenas com redes de transporte público altamente eficientes.

"As plantas são sistemas altamente complexos, sofisticados... A verdadeira evolução urbana não vem de soluções arquitetônicas voltadas apenas para o bem-estar humano, mas de uma interação mais fluida e orgânica com a natureza", destacou Mancuso, lembrando que 70% da população mundial vive hoje em centros urbanos.

As Cidades-Jardim da Amazônia Antiga

O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves, professor titular da USP, trouxe evidências históricas de que a integração entre floresta e urbanismo não é uma utopia futurista, mas uma tecnologia ancestral. Ele mapeou manifestações de urbanismo indígena de 2,5 mil anos atrás no Acre, modelo que se espalhou pela Amazônia nos séculos seguintes.

Neves aponta que essas civilizações antigas funcionavam como verdadeiras "cidades-jardim", entremeadas por bosques e áreas manejadas, sem empurrar a natureza para fora. O pesquisador também criticou o modelo segregador das metrópoles atuais:

“A principal lição desse urbanismo antigo é que ele não coloca a natureza para fora. Em São Paulo, matamos os rios, se tornaram depósitos de lixo. (...) Além disso, o urbanismo atual dá as costas para as populações mais desassistidas, já que os bairros mais arborizados são sempre os mais ricos. A gente tem que trazer a floresta de volta.”

Transfluência, Tecnologia e o "Re-encantamento" pelo Território

O seminário deste ano foi guiado pelo conceito de transfluência, inspirado na obra do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), falecido em 2023. A proposta defende que as ações humanas e não humanas são circulares e devem cruzar barreiras para reaproximar o ser humano do cuidado com a terra.

  • Lógica do Afeto: Joana Maria, líder quilombola e filha de Nêgo Bispo, reforçou que a natureza deve deixar de ser vista como mero recurso econômico e passar a ser o "lugar do afeto e do cuidado mútuo".

  • Mudança Decisória: A bióloga Sue Anne Costa, do Museu Emílio Goeldi (PA), introduziu a necessidade de um "re-encantamento" dos gestores públicos pelo território sagrado, rompendo com as decisões baseadas puramente em lógicas financeiras e de exploração.

  • Fusão Tecnológica: A gestora cultural colombiana Ana Ochoa Acosta ponderou que o urbanismo moderno não precisa "retroceder ao paraíso arcaico", mas sim aprender a equilibrar a complexidade do mundo orgânico com as novas tecnologias inorgânicas que produzimos.

O Exemplo Prático de Inhotim

Além de ser o maior museu a céu aberto de arte contemporânea da América Latina, o Instituto Inhotim atua como um Jardim Botânico estratégico na conservação da biodiversidade brasileira.

Localizado em uma zona de transição crítica entre a Mata Atlântica e o Cerrado, o instituto já regenerou 75 hectares de floresta nativa e abriga um acervo vivo com mais de 1 mil espécies de plantas. Atualmente, a área protegida mantém um estoque de 34.215,13 toneladas de carbono, um volume que exigiria o plantio de cerca de 1,26 milhão de árvores em ambientes estritamente urbanos para ser replicado.



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