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PEC da autonomia do BC favorece manutenção de juros altos no Brasil, apontam economistas

Por Redação TV SDB
07/06/2026 - Atualizado às 13:00


Imagem: Divulgação

Documento assinado por ex-ministros e pesquisadores aponta que a autonomia financeira pretendida pela autoridade monetária enfraquece a fiscalização estatal e pode agravar a dívida pública do país.

A proposta de emenda à Constituição (PEC 65/2023) que prevê a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central (BC) pode facilitar a cooptação da autoridade monetária pelo setor financeiro e favorecer a manutenção das altas taxas de juros no Brasil. O alerta consta em um manifesto assinado nesta semana por renomados economistas brasileiros.

O documento, que se opõe à medida em pauta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, argumenta que a PEC cria uma "independência seletiva". Na prática, o texto afasta o Banco Central do controle democrático do Estado — exercido pelo Congresso Nacional, pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pelo Executivo —, mas o mantém estruturalmente exposto às influências do próprio mercado que deveria regular.

“Perdem-se os freios dos poderes constituídos e os canais de acesso do setor privado continuam abertos”, destaca um trecho do manifesto, que reúne assinaturas de ex-ministros da Fazenda, como Luiz Carlos Bresser-Pereira, e professores titulares de universidades públicas e privadas.

O conflito da "senhoriagem" e os juros altos

Um dos pontos mais críticos levantados pelos especialistas envolve a senhoriagem — receita gerada pela criação de moeda. Atualmente, o BC já possui autonomia administrativa e operacional (sancionada em 2021), mas depende do Orçamento da União para suas atividades.

A PEC 65 ampliaria essa autonomia ao permitir que o BC retenha os recursos da senhoriagem para o seu próprio caixa. Entre 2017 e 2025, essa receita atingiu a média de R$ 23,3 bilhões ao ano, valor quase cinco vezes maior que o orçamento de funcionamento da instituição, fixado em cerca de R$ 4,8 bilhões anuais no mesmo período.

Como a senhoriagem depende das taxas de juros, os economistas alertam para um grave conflito de interesses. “O BC passaria a se beneficiar institucionalmente de condições macroeconômicas que deveria administrar em nome do interesse público, e não de seu próprio orçamento. O BC passaria a ter conflito de incentivos em relação à manutenção de juros elevados”, afirmam.

Atualmente, o Brasil possui a segunda maior taxa de juros reais do mundo, cenário que atua como o principal motor do crescimento da dívida pública nacional. Com a PEC, as receitas geradas pelo BC deixariam de ser transferidas ao Estado para abater essa dívida, sendo tratadas apenas como “receita própria” da autoridade monetária.

Fiscalização fragilizada e o caso Banco Master

Os signatários do manifesto apontam que a PEC 65 desmonta mecanismos essenciais de responsabilização ao retirar o BC da Lei Orçamentária Anual (LOA) e enfraquecer a jurisdição do TCU. Para eles, um órgão que atua sem a devida supervisão parlamentar e orçamentária torna-se um alvo fácil de lobistas.

Os especialistas citam como exemplo recente a emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) à proposta. A emenda é investigada pela Polícia Federal sob a suspeita de ter sido redigida pelo Banco Master para ampliar a capacidade de eventuais fraudes no sistema financeiro e garantir socorros financeiros de emergência.

Segundo os economistas, essa dinâmica configura a "definição clássica de um regulador capturado: um agente concebido para servir ao público, mas cujos incentivos o aproximam sistematicamente dos interesses dos regulados".

Na contramão do mundo

A PEC 65 tem o forte apoio da direção do Banco Central, liderada pelo presidente Gabriel Galípolo, que argumenta que a instituição necessita de mais recursos e flexibilidade para cumprir sua missão fiscalizatória. A proposta também é endossada abertamente por entidades como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Associação Brasileira de Bancos (ABBC).

No entanto, o manifesto refuta o argumento oficial de que a medida estaria alinhada às melhores práticas internacionais. Os economistas garantem que a proposta brasileira seria um caso único: “Nenhum dos principais bancos centrais do mundo — como os dos EUA, Reino Unido, Zona do Euro e Japão — possui a combinação de autonomia financeira, isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC pretende criar”, conclui o documento.

Signatários do manifesto

O documento contra a aprovação da PEC 65 conta com o apoio dos seguintes especialistas:

  • Luiz Carlos Bresser-Pereira – FGV, ex-ministro da Fazenda;

  • Luiz Gonzaga Belluzzo – Unicamp, ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda;

  • Paulo Nogueira Batista Jr. – Economista;

  • Élida Graziane – FGV e Procuradora do Ministério Público de Contas de São Paulo;

  • Leda Paulani – USP;

  • Ladislau Dowbor – PUC-SP;

  • Gilberto Bercovicci – USP;

  • Pedro Rossi – Unicamp;

  • Antônio Prado – Vice-presidente do Corecon-SP;

  • Haroldo Silva – Presidente do Corecon-SP;

  • Flavia Dantas – SUNY Cortland;

  • Pedro Paulo Zahluth Bastos – Unicamp;

  • Maria de Lourdes Rollemberg Mollo – UNB;

  • Isabel Busato – UFRJ;

  • André Modenesi – UFRJ;

  • Lena Lavinas – UFRJ;

  • Luiz Fernando de Paula – UFRJ;

  • Vanessa Petrelli Corrêa – UFU;

  • Carlos Aguiar de Medeiros – UFRJ;

  • Rosa Maria Marques – PUC-SP;

  • Simone Deos – Unicamp;

  • Adriana Amado – UNB;

  • Larissa Naves de Deus Dornelas – UFPR;

  • Marco Antônio Rocha – Unicamp;

  • Juliane Furno – UFF.



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