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Desemprego entre jovens mulheres negras atinge 24,7%, o pior índice do mercado de trabalho

Por Redação TV SDB
06/06/2026 - Atualizado às 14:33


Levantamento do Ceert, com base em dados de 2025, revela que racismo estrutural e desigualdade territorial mantêm o grupo nos piores indicadores do país. Especialistas cobram políticas públicas que vão além das cotas.

Apesar dos avanços recentes no mercado de trabalho brasileiro — marcados pela queda nos índices gerais de desemprego e pelo aumento da renda média —, as jovens mulheres negras continuam na base da pirâmide econômica. O grupo registra os piores resultados do país em indicadores cruciais: taxa de desocupação, informalidade, desalento e rendimento.

O diagnóstico alarmante faz parte do relatório da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert). O estudo utilizou microdados da PNAD Contínua de 2025, pesquisa do IBGE que mapeia o mercado de trabalho nacional.

Segundo o levantamento, as melhorias nos índices de educação formal não foram suficientes para romper as desigualdades estruturais que afetam mulheres negras com idades entre 14 e 29 anos.

A barreira do desemprego por faixa etária

O abismo racial e de gênero fica evidente quando as taxas de desocupação são divididas por idade e comparadas ao desempenho de homens brancos:

  • 14 a 17 anos: A taxa de desocupação das mulheres negras chega a expressivos 24,7% (índice 1,4 vez superior à dos homens brancos da mesma idade).

  • 18 a 24 anos: Considerada a fase crucial de transição entre a escola e o mercado, a desocupação atinge 16,5% para elas (1,6 vez maior que a dos homens brancos).

  • 25 a 29 anos: A taxa de desocupação das mulheres negras é de 10,3% (quase o dobro da observada entre mulheres brancas e 2,8 vezes maior que a dos homens brancos).

"O mercado de trabalho melhorou, mas não de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão", explica Shirley Santos, coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert.

A pesquisadora aponta que fatores como o racismo estrutural, a segregação territorial — que dificulta a mobilidade urbana nas periferias —, a discriminação em processos seletivos e a sobrecarga histórica do trabalho de cuidado são determinantes para esse cenário.

Abismo salarial, informalidade e desalento

As barreiras na contratação refletem-se diretamente na qualidade de vida e na renda das jovens que conseguem trabalhar. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% do salário dos homens brancos — uma defasagem de 53,5% que permanece estagnada nos últimos anos.

Quando o recorte é feito na Região Metropolitana de São Paulo, o abismo financeiro choca: jovens mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236, enquanto homens brancos chegam a R$ 3.926. Na faixa de 25 a 29 anos, a desigualdade se aprofunda ainda mais, com rendimentos de R$ 2.569 para elas contra R$ 5.323 para eles.

Outros indicadores de precarização revelam que as jovens negras:

  • Lideram a informalidade feminina: A taxa é de 39,1% (cerca de 10% acima da registrada entre jovens brancas). O único grupo em situação pior neste quesito é o de jovens homens negros (44,2%).

  • São a maioria no desalento: Entre as pessoas que desistiram de procurar emprego por falta de esperança ou oportunidade, as mulheres negras representam 38,7% do total de jovens. Na faixa de 25 a 29 anos, essa participação sobe para 44,2%.

Soluções além das cotas

O estudo conclui que, embora as cotas raciais sejam essenciais, elas não são suficientes para resolver uma exclusão tão profunda no ritmo necessário. Shirley Santos defende políticas estruturantes focadas em garantir não apenas o acesso, mas a permanência, a mobilidade social e a chegada a posições de liderança.

Entre as medidas apontadas como caminhos urgentes para reverter o cenário, destacam-se:

  • Ampliação do acesso a creches e políticas públicas de cuidado;

  • Programas de permanência estudantil aliados a cotas em universidades e concursos;

  • Metas rígidas de diversidade e inclusão no setor privado;

  • Programas de qualificação profissional específicos para a juventude negra;

  • Políticas territoriais focadas em infraestrutura para periferias urbanas;

  • Incentivos reais à formalização do trabalho;

  • Programas de transferência de renda articulados à inclusão produtiva.

“O enfrentamento das desigualdades raciais exige investimento público, compromisso institucional e participação social. Uma transição justa só será efetiva se enfrentar as desigualdades estruturais que organizam a sociedade brasileira”, finaliza a coordenadora.



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