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"É uma escolha racional": Safatle analisa o avanço da extrema direita e os novos fascismos globais

Por Redação TV SDB
05/06/2026 - Atualizado às 16:53


Imagem: Facebook/Vladimir Safatle

Em entrevista, o filósofo e professor da USP analisa como as democracias liberais naturalizaram práticas de exclusão e alerta que o apoio atual a movimentos autoritários se baseia em um "cálculo racional" e na falta de solidariedade social.

O filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle, é um crítico contundente dos pensadores que resistem a classificar os atuais movimentos autoritários de extrema direita como fascistas. Para o autor do recém-lançado livro A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, a sociedade e a academia precisam perder o medo de dar o nome correto a esse fenômeno político contemporâneo.

Mais do que um simples retorno ao passado, Safatle argumenta que o fascismo moderno se sustenta em um cálculo racional e frio de seus apoiadores. "É mais ou menos o seguinte: 'não tem mais sociedade para todo mundo, não tem espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu'", descreve o professor.

Nesta entrevista, Safatle detalha como a violência fascista foi naturalizada nas chamadas democracias liberais, analisa as raízes históricas do autoritarismo no Brasil e critica a omissão de parte da intelectualidade.

A ilusão da democracia e as raízes coloniais

Para Safatle, tentar restringir o conceito de fascismo apenas ao fenômeno histórico da Itália nos anos 1930 é uma decisão política que busca encobrir a realidade atual. Ele defende que as democracias liberais sempre naturalizaram práticas de violência extrema contra grupos e territórios específicos — táticas que derivam diretamente do colonialismo.

O filósofo questiona a própria universalidade da democracia brasileira. "Na perspectiva de alguém que habita onde eu habito, Higienópolis [bairro nobre de São Paulo], é possível falar em democracia porque tenho integridade pessoal. Mas, se você mora no Complexo do Alemão, onde é possível matar dezenas de pessoas e elas continuarem sem nome e sem comoção pública, falar de democracia é uma obscenidade. Dessa perspectiva, ela simplesmente nunca existiu", afirma.

Diante disso, o professor sugere que seria mais adequado tratar o modelo atual como um "fascismo restrito", onde a violência sistêmica é aplicada de forma normalizada contra as populações mais precarizadas.

Violência suicidária e a "contra gestão" das crises

Ao diferenciar o fascismo de outros regimes autoritários, como o stalinismo, Safatle destaca a natureza de sua violência. Enquanto o autoritarismo clássico usa a força para preservar o Estado, o fascismo opera com uma "violência suicidária", que exige uma mobilização permanente para a guerra e um constante autossacrifício, levando até mesmo o próprio Estado ao colapso.

Esse comportamento, segundo o pesquisador, fica evidente na maneira como governos de extrema direita lidam com crises modernas, sejam elas climáticas, econômicas ou sanitárias.

Safatle cita a gestão da pandemia no Brasil como um exemplo claro de uma lógica de "contra gestão" fascista. "A dinâmica funcionava de um jeito que nunca tínhamos visto, que era naturalizar para a sociedade a ideia de se confrontar com o nível mais elevado de exposição à morte violenta. Quando você via massas indo a hospitais para criticar médicos, expondo-se à morte como se fosse um ato de coragem, isso tem uma matriz muito clara do autossacrifício próprio do fascismo", explica.

O avanço como escolha racional

O enfrentamento desse cenário exige compreender que a adesão ao fascismo não é uma regressão cognitiva ou fruto de ingenuidade diante de fake news. Trata-se de uma dessensibilização social programada.

Para que essa engrenagem funcione, a indiferença precisa ser o afeto central da sociedade. "Eu não posso sentir que o seu destino diz respeito a mim também. Isso implica decompor todas as estruturas de solidariedade social que ainda restavam", pontua o autor, cobrando uma autocrítica dos campos progressistas sobre como a sociedade chegou a um ponto onde "a coisa mais racional é ser fascista".

Crítica à omissão acadêmica

Por fim, o professor critica a resistência de parte dos intelectuais e pesquisadores brasileiros em usar o termo fascismo para classificar a realidade do país, ignorando o próprio histórico nacional.

Ele lembra que o Brasil sediou a Ação Integralista Brasileira, o maior partido fascista fora da Europa nos anos 1930, que exerceu forte influência durante a ditadura militar e cujos lemas voltaram a ser usados pela extrema direita contemporânea.

"A universidade deveria começar fazendo uma profunda autocrítica sobre como foi capaz de não enxergar essa história por tanto tempo. Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há um fascismo que é constituinte da nossa história acaba sendo cúmplice desse processo", conclui Safatle.



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