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Garimpo e contaminação: mercúrio no Rio Tapajós causa lesões neurológicas irreversíveis em indígenas

Por Redação TV SDB
05/06/2026 - Atualizado às 16:49


Imagem: Reprodução/Projeto Rondon

Pesquisa inédita revela que o metal tóxico passa pela placenta e afeta o desenvolvimento infantil nas aldeias do Pará. O garimpo ilegal e a dieta baseada em peixes deixam os indígenas sem alternativas de sobrevivência segura.

Uma tragédia silenciosa e irreversível atinge a Terra Indígena Munduruku, na região do Médio Tapajós, no Pará. Mulheres gestantes da etnia apresentam concentrações de mercúrio no corpo até quatro vezes e meia acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O diagnóstico alarmante faz parte dos resultados preliminares do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, conduzido por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Os números foram apresentados nesta quarta-feira (3) pelo coordenador da pesquisa, Paulo Basta, durante a Rio Nature & Climate Week.

A OMS estabelece que nenhum organismo deveria possuir mais do que 2 microgramas do metal por grama de cabelo (µg/g). No entanto, a realidade encontrada nas aldeias foge completamente a esse parâmetro:

  • Gestantes contaminadas: Das 195 mulheres monitoradas, 97% têm mercúrio acima do nível seguro. A média é de 9,1 µg/g. No caso mais extremo registrado, uma gestante apresentou 39,9 µg/g — 20 vezes acima do limite tolerável.

  • Bebês em risco: Das mulheres acompanhadas, 134 já deram à luz. A pesquisa revelou que 90% das crianças já nascem contaminadas, pois o metal é transferido da mãe para o bebê através da placenta.

  • Níveis nas crianças: Os bebês apresentam, em média, 5,8 µg/g (quase o triplo do limite). Em um dos casos, um recém-nascido marcou 30,8 µg/g (15 vezes acima da margem de segurança).

Danos neurológicos irreversíveis

Os bebês contaminados são monitorados de perto durante os primeiros dois anos de vida para avaliar o peso, a estatura e, principalmente, o neurodesenvolvimento.

“O mercúrio se converte em uma neurotoxina que vai afetar principalmente o tecido do sistema nervoso central. Uma lesão que ocorre no sistema nervoso central é irreversível. As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre”, alerta o pesquisador Paulo Basta.

O reflexo dessa contaminação já é visível no dia a dia. Segundo Basta, há um crescimento de crianças nascendo com doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas na região. Como reflexo direto, o distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós tornou-se a unidade de saúde que mais demandou cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde em todo o país.

Apesar da gravidade, o Brasil ainda não possui uma ficha oficial de notificação para casos de contaminação por mercúrio. Mesmo assim, os pesquisadores já identificaram 751 indígenas contaminados com confirmação laboratorial, sendo 318 no Pará (Munduruku) e 378 em Roraima (Yanomami).

O desespero nas aldeias

A contaminação não afeta apenas a saúde física, mas destrói a estrutura psicológica das comunidades. A liderança Alessandra Korap Munduruku relata a comoção coletiva gerada desde os primeiros testes, em 2019.

“Estávamos doentes, mas sem exames, não sabíamos o que estava acontecendo. Quando tivemos os resultados, as mulheres ficaram bem revoltadas. Perguntavam se deveriam interromper a gravidez porque o útero estaria contaminado e o leite materno também poderia contaminar os filhos”, lamenta a líder indígena.

O metal pesado entra no organismo humano principalmente pelo consumo de peixes, base da alimentação local. O mercúrio é amplamente utilizado por garimpeiros para separar o ouro da terra, sendo despejado diretamente nos rios.

“Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso. Para quem mora na cidade é muito fácil ir nas prateleiras e comprar frango ou carne. O coração dói porque o povo não tem como sair do território e ir para outro lugar. Que progresso é esse que mata rios, florestas e expulsa os povos?”, questiona Alessandra.

O rastro de destruição do garimpo

O avanço da doença acompanha o avanço da mineração. Dados do MapBiomas indicam que 92% da área garimpada (legal ou ilegal) no Brasil concentra-se na Amazônia, sendo 85% dedicada exclusivamente à extração de ouro.

Além da tragédia sanitária, a atividade carrega um rastro de desmatamento, violência, trabalho escravo e sonegação. Um estudo recente do Greenpeace apontou que Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) são frequentemente usadas para "lavar" o ouro extraído ilegalmente de terras indígenas, burlando regras de licenciamento.

Especialistas e autoridades, como a promotora Eliane Moreira, do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), apontam que a flexibilização indevida dos licenciamentos ambientais por parte dos governos estaduais facilita o crime. “Essa grande contaminação acontece a partir de um licenciamento bastante frágil. Em municípios com baixo IDH, não há estrutura institucional para fiscalização, criando um ambiente propício para toda essa tragédia”, conclui a procuradora.



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