Inclusão dos grupos criminosos na mesma lista da Al-Qaeda amplia poder de sanção de Washington. Cientistas políticos apontam que cenário difere da crise venezuelana e que pressão americana será econômica e diplomática.
O anúncio do governo dos Estados Unidos, feito nesta quinta-feira (28), de que classificará as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas levantou um debate geopolítico: o Brasil corre o risco de sofrer uma intervenção americana semelhante à que culminou na captura de Nicolás Maduro na Venezuela?
A partir de 5 de junho, as facções passarão a ser designadas como “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGTs) e “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTOs) — a mesma categoria aplicada a grupos extremistas como a Al-Qaeda, o Estado Islâmico e o Cartel de los Soles, este último diretamente associado ao regime venezuelano.
Apesar da semelhança na classificação e do uso do termo "narcoterrorismo", especialistas apontam que o cenário brasileiro difere profundamente do país vizinho.
Diferenças para a Venezuela
Para Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, a principal diferença está na diplomacia. “Na Venezuela, o governo americano não reconhecia Nicolás Maduro como presidente da República, e abriu processo criminal contra ele, acusando-o de ser o chefe de uma quadrilha. Em contraste, não há acusações dos EUA contra Lula”, explica.
O mestre em Relações Internacionais Uriã Fancelli concorda e avalia que o objetivo dos EUA no Brasil não é forçar uma mudança de regime, mas sim alinhar a agenda de Brasília à de Washington.
"Se na Venezuela esse discurso [de narcoterrorismo] serviu para justificar contenção regional e estrangulamento político do regime, no Brasil ele funciona mais como instrumento de pressão externa e disputa interna, inclusive porque atores americanos podem se alinhar a setores do bolsonarismo", pontua Fancelli.
Existe risco de ação militar?
A possibilidade de uma intervenção militar direta em território brasileiro divide as análises sobre sua viabilidade, mas há consenso de que seria uma medida extrema. A última vez que o Brasil viveu uma tensão semelhante com os EUA foi em 1964, às vésperas do golpe militar.
Santoro alerta que, embora uma invasão territorial sem autorização federal configurasse um ato de guerra, o risco de ações pontuais existe. "Não significa que isso vá, necessariamente, acontecer, mas a classificação cria a possibilidade de que as Forças Armadas dos EUA atuem. Por exemplo, abatendo aviões ou afundando navios suspeitos, como fizeram no litoral venezuelano."
Já Fancelli considera uma intervenção militar “muito improvável”. Para ele, a máquina americana focará seu poder de fogo na asfixia logística e econômica.
Impactos práticos e sanções
Na prática, a nova designação amplia drasticamente o poder de jurisdição dos Estados Unidos sobre pessoas e empresas suspeitas de ligação com as facções brasileiras. Qualquer indivíduo associado a esses grupos que viaje para os EUA, por exemplo, poderá ser preso imediatamente.
Segundo os especialistas, os verdadeiros riscos para o Brasil concentram-se em retaliações e pressões estruturais, que incluem:
Aplicação de sanções financeiras severas e bloqueio de ativos nos Estados Unidos;
Abertura de investigações sobre bancos e fintechs brasileiras;
Pressão direta sobre portos, empresas de logística e exportadoras;
Imposição de restrições migratórias;
Exigências de compartilhamento de dados e cooperação policial forçada.
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