Para Esther Duflo e Abhijit Banerjee, debate não deve ser sobre acabar com o benefício, mas aprimorá-lo com tecnologia. Dados da FGV mostram que programa garante mobilidade social e mais de 60% deixam o auxílio com o tempo.
A recente declaração do apresentador Luciano Huck sobre o Bolsa Família — na qual afirmou que o programa “não quebra o ciclo da pobreza” e que os beneficiários encontrariam “atalhos” para permanecer dependentes do auxílio — reacendeu o debate nacional sobre as políticas de transferência de renda no Brasil. Para especialistas, no entanto, a fala serve como ponto de partida não para o fim, mas para a evolução do programa.
No mês passado, os vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, Esther Duflo e Abhijit Banerjee, defenderam em entrevista à revista Exame que a discussão pública deve superar a polarização do “a favor ou contra”. O foco, segundo eles, precisa estar na criação de novos modelos de proteção social, considerando fatores globais como a desigualdade crescente, o envelhecimento populacional e os impactos da inteligência artificial.
“Em vez de perguntar se é bom ou ruim, seria muito mais útil pensar no que seria o Bolsa Família 2, 3 ou 4”, afirmou Banerjee. Para os economistas, o programa precisa evoluir, incorporando dados, tecnologia e práticas que aumentem a eficiência e garantam um atendimento cada vez mais individualizado às famílias.
A tese de que o programa gera acomodação esbarra nos números oficiais. Segundo Duflo, o Bolsa Família já é uma referência internacional consolidada, responsável por reduzir a pobreza extrema no país e inspirar modelos semelhantes ao redor do mundo.
Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) comprova que o benefício tem, de fato, servido como trampolim social. Os dados acompanharam beneficiários de 2014 até 2025 e revelaram que:
Mais de 60% das famílias deixaram o programa ao longo desse período;
Entre adolescentes de 11 a 14 anos, a taxa de saída é de 68,8%;
Entre os jovens de 15 a 17 anos, a saída chega a 71,25%, sendo a educação apontada como o principal motor dessa independência.
O estudo da FGV também mediu a saída dessas famílias do Cadastro Único (CadÚnico), o que indica que elas alcançaram faixas de renda mais elevadas. Entre os jovens de 15 a 17 anos, 52,67% deixaram o CadÚnico e, destes, 28,4% já possuem emprego com carteira assinada. Na faixa de 11 a 14 anos, 46,95% saíram do registro, com 19,1% inseridos no mercado formal de trabalho.
Os dados demonstram que, ao contrário da percepção apontada por Huck, o programa contribui ativamente para a mobilidade social e a autonomia a longo prazo.
Os economistas alertaram ainda para os desafios globais iminentes que as redes de proteção social terão que enfrentar. O avanço da automação e da inteligência artificial, por exemplo, pode concentrar ainda mais a renda e ameaçar empregos da classe média intelectual, como programadores, advogados e contadores. Banerjee destacou também que a resistência dos super-ricos ao pagamento de impostos agrava a desigualdade e cria um forte risco de instabilidade social.
Para enfrentar crises climáticas severas, Duflo propôs a criação de mecanismos inovadores e ágeis, como um “Pix do Clima”. A ideia consiste em realizar transferências financeiras automáticas para famílias afetadas por ondas de calor, enchentes ou desastres naturais, utilizando o banco de dados do governo para reduzir custos administrativos e garantir socorro imediato nos momentos críticos.
O casal vencedor do Nobel reforça que o Brasil possui uma estrutura altamente avançada de coleta de dados e avaliação de políticas públicas, o que o mantém na vanguarda do setor. Segundo Duflo, pesquisadores de outros países buscam constantemente aprender com a experiência brasileira, especialmente em contraste com as dificuldades de acesso a dados confiáveis em nações como os Estados Unidos.
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