Com estreia nos cinemas brasileiros agendada para o dia 19 de novembro (em alusão ao Mês da Consciência Negra), o documentário O Projeto aborda os séculos de dominação colonial europeia e os desdobramentos da supremacia branca na sociedade contemporânea. O longa-metragem marca a estreia na direção de longas da cineasta brasileira Sabrina Fidalgo, em codireção com o fotógrafo e realizador suíço Yvan Rodic. Selecionado para a mostra competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado e exibido na abertura do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, o filme conta ainda com exibições na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e no 36º Cine Ceará. A estreia no circuito internacional está prevista para dezembro. “A sociedade ocidental vive um estado de absoluta ignorância, de não saber, de não ter que saber e não dever saber”, pontua a intelectual portuguesa Grada Kilomba em uma das intervenções do filme. Filmado ao longo de seis anos em sete países, O Projeto evita o formato tradicional dos documentários históricos puramente acadêmicos. Os realizadores optaram por uma linguagem de ensaio audiovisual, posicionando seus próprios corpos e vivências no centro da discussão. Início e urgência do projeto: A produção começou a ser concebida após a comoção global e os levantes contra o racismo deflagrados pelo assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, em 2020. Dupla perspectiva de narrativa: O filme confronta as experiências de Sabrina Fidalgo — mulher negra, vinda da classe média brasileira, que enfrentou situações de discriminação racial enquanto estudava cinema na Alemanha — com a visão de Yvan Rodic, homem branco vindo da Suíça, país onde a discussão sobre a cumplicidade no sistema colonial é recente. Metáfora visual: Uma das imagens marcantes do longa retrata a própria diretora utilizando um pregador de roupas no nariz, em referência a relatos de sua adolescência sobre métodos informais de tentativa de embranquecimento e alteração dos traços corporais. O documentário aprofunda o conceito de colonialidade — a manutenção de estruturas de dependência econômica, social e cultural exercidas pelo Norte Global sobre o Sul Global mesmo após o fim formal dos impérios coloniais. As lideranças do audiovisual e diretores destacam a importância do engajamento de pessoas brancas no debate antirracista: Público-alvo europeu: Os diretores ressaltam que o diálogo sobre racismo estrutural encontra maior defasagem no debate público em diversos países europeus em comparação com o Brasil. Para Rodic, a presença de uma perspectiva branca no filme visa quebrar a premissa de que a pauta antirracista deve ser discutida apenas pelas vítimas. Visão do movimento negro: Janaína Refem, vice-presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), reforça que a obra explicita o racismo como uma construção social da branquitude. O cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo também celebrou o lançamento do primeiro longa de Fidalgo, destacando sua originalidade na nova geração do cinema nacional. A obra combina dados históricos — incluindo citações a matérias jornalísticas sobre os impactos do racismo na saúde pública — com entrevistas de intelectuais, artistas e ativistas de ambos os lados do Atlântico. Entrevistados no Brasil: A filósofa Djamila Ribeiro, o escritor Anderson França, o ativista Preto Zezé e a arquiteta e urbanista Joice Berth. Entrevistados no exterior: A intelectual portuguesa Grada Kilomba, o historiador suíço Hans Fässler, a artista visual afegã Moshtari Hilal (baseada em Hamburgo), a jornalista francesa Rokhaya Diallo e o geógrafo de origem tâmil Sinthujan Varatharajah. Referências estéticas: A linguagem do longa inspirou-se na obra da cineasta francesa Agnès Varda (em especial no documentário Visages, Villages) e no ensaio audiovisual Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck.Estrutura narrativa e premissa ensaística
O debate sobre a colonialidade e o público do Norte Global
Pesquisa, corpo de entrevistados e referências
Rádio ao vivo