Um artigo publicado pelo economista André Lara Resende — integrante da equipe formuladora do Plano Real, ex-diretor do Banco Central (BC) e ex-presidente do BNDES — gerou amplo debate no cenário econômico ao atribuir à autoridade monetária a responsabilidade pelo crescimento da dívida pública e pelo rombo nas contas do país. O especialista contesta a narrativa dominante no mercado financeiro e defende uma reforma estrutural no regime fiscal e monetário brasileiro.
Lara Resende critica a manutenção da taxa Selic em patamares elevados (13,75% ao ano), posicionando o Brasil no topo do ranking global de juros reais, segundo levantamento da consultoria Moneyou.
“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater. [...] Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica.”
Apesar de reconhecer a ineficiência de certos gastos públicos — citando distorções em emendas parlamentares, penduricalhos salariais no Judiciário e desonerações tributárias —, o economista argumenta que o déficit primário (diferença entre receitas e despesas operacionais, excluindo os juros) é pequeno e próximo do equilíbrio.
Trajetória da dívida: A dívida bruta do governo geral saltou de 71,7% do PIB em 2022 para aproximadamente 82,9% do PIB em agosto de 2026.
Peso dos juros: Nos últimos 12 meses, o pagamento de juros sobre a dívida consumiu mais de R$ 1,1 trilhão do orçamento público, representando cerca de 8,9% do PIB e empurrando o déficit nominal para próximo de 10% do PIB.
Para Lara Resende, a exigência do mercado financeiro por cortes em políticas sociais e despesas primárias não resolverá a trajetória da dívida sem uma revisão da política monetária.
Em contrapartida, o Banco Central e o Comitê de Política Monetária (Copom) sustentam que a manutenção de juros elevados é indispensável para conter as pressões inflacionárias, desestimular o consumo excessivo e compensar os riscos derivados do déficit fiscal primário.
Na visão da autoridade monetária, expressa em suas atas oficiais, a desaceleração de reformas estruturais, o expansionismo de crédito direcionado e as dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida limitam o espaço para o alívio na taxa Selic.
No entanto, Lara Resende contesta esses fundamentos conceituais:
Curva de Phillips anacrônica: Argumenta que a relação clássica de que o aumento do desemprego é pré-requisito para conter a inflação perdeu sustentação empírica e conceitual.
Impacto inflacionário temporário: Sustenta que eventuais pressões sobre os preços decorrentes do corte de juros possuem caráter de curto prazo e efeito transitório.
Para interromper a escalada da dívida, o economista defende que a taxa básica de juros seja convergida para um patamar próximo ao crescimento nominal da economia. Sua proposta prevê a criação de um modelo integrado para a política econômica:
Planejamento de longo prazo: Fixação de metas fiscais e monetárias conjuntas para períodos de quatro a cinco anos.
Banda de juros associada à inflação: O BC se comprometeria a manter a taxa básica fixada dentro de um intervalo delimitado pela meta de inflação (3%) e pela taxa de crescimento nominal potencial do país.
Atuação cambial firme: Utilização das reservas internacionais do Brasil — superiores a US$ 350 bilhões — para intervir no mercado de câmbio e conter desvalorizações acentuadas do real sem a necessidade de elevar juros.
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