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Estudo aponta que ausência de manejo na soja pode reduzir produtividade em até 55%, mas alerta para expansão no consumo de defensivos

Por Redação TV SDB
01/11/2026 - Atualizado às 13:43


Imagem: CNA/Wenderson Araujo/Trilux

Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em parceria com a CropLife Brasil revelou que a lavoura de soja no país enfrentaria uma quebra de produtividade de até 55% caso não fossem adotadas medidas de controle contra pragas, doenças e ervas daninhas. A pesquisa alerta que a retração na colheita traria graves reflexos econômicos e pressões inflacionárias sobre a mesa do consumidor.

Por outro lado, o levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e alertas de especialistas da Embrapa destacam os impactos ambientais e os riscos à saúde humana associados ao uso massivo de defensivos químicos, insumos que têm a soja — ao lado do milho e da cana-de-açúcar — como principal destino no país (76% do consumo nacional).

Cenários operacionais e impactos econômicos

A simulação da UFV analisou o comportamento das lavouras diante de quatro doenças (como a ferrugem-asiática e a mancha-alvo), cinco pragas (incluindo a mosca-branca) e nove espécies de plantas daninhas, projetando três níveis de manejo:

  • Controle Ótimo (80% de proteção): Alcança produtividade de 72 sacas por hectare. Gera receita simulada de US$ 44,2 bilhões em exportações de soja.

  • Controle Parcial (até 40% de proteção): Registra 52 sacas por hectare (redução de 28% em comparação ao controle ótimo).

  • Sem Manejo (zero controle): A produtividade despenca para 32 sacas por hectare (perda de 55%). Nesse cenário extremo, o país deixaria de produzir 121,3 milhões de toneladas, equivalentes a um prejuízo estimado em R$ 223,5 bilhões. A receita de exportação recuaria para US$ 26,6 bilhões (diferença de US$ 17,6 bilhões por safra).

Para compensar o déficit de um cenário sem controle fitossanitário, o Brasil precisaria incorporar uma área produtiva adicional de 33,5 milhões de hectares — dimensão territorial próxima à do estado de Goiás.

Além disso, a UFV estima que a retração de oferta causaria uma alta de até 49% no preço do grão, provocando um impacto indireto de 0,26 ponto percentual na inflação oficial (IPCA). Segundo a pesquisadora Ana Carolyne Carvalho (UFV), o aumento encareceria derivados diretos (óleo de soja e farelo) e indiretos da cadeia de proteína animal, como carnes suína, de frango, leite e ovos.

Riscos ambientais, saúde pública e recorde no uso de agrotóxicos

Embora a UFV liste quatro caminhos para mitigar perdas (biotecnologia, melhoramento genético, bioinsumos e defensivos químicos), o avanço dos químicos acende alertas regulatórios e socioambientais.

Dados do Ipea indicam que, entre 2003 e 2023, o uso de defensivos químicos no Brasil quadruplicou, saltando de 180 mil para 800 mil toneladas anuais. Com isso, o país atingiu a marca de 10,9 quilos por hectare (kg/ha) — indicador quase quatro vezes superior ao dos Estados Unidos (2,85 kg/ha) e cinco vezes maior que o da China (1,9 kg/ha).

O pesquisador da Embrapa Robson Barizon adverte sobre a toxicidade dessas substâncias:

"Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos [...]. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade."

Barizon ressalta ainda a ambivalência dos organismos geneticamente modificados (OGMs): enquanto espécies imunes a pragas dispensam certos produtos, plantas desenvolvidas para resistir a herbicidas costumam incentivar a aplicação de dosagens mais elevadas para a eliminação de ervas daninhas, favorecendo a seleção de vegetais resistentes.

Ritmo de liberação de produtos e intoxicações

Representando o setor de insumos, o coordenador de Sustentabilidade da CropLife, Pedro Duarte, argumentou que os defensivos químicos passam por rigorosas etapas de aprovação governamental para assegurar o uso seguro nas dosagens recomendadas.

Contudo, os dados estatísticos apontam para uma aceleração no ritmo de aprovações e casos de intoxicação:

  • Registros de produtos: Entre 2005 e 2019, foram registrados 3.151 novos agrotóxicos no país, sendo apenas 20% classificados como de baixa toxicidade. Após a promulgação da nova Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o número de liberações alcançou 663 novos produtos em 2024, superando as 555 autorizações efetuadas em 2023.

  • Casos de intoxicação: Dados do Ministério da Saúde compilados pela ONG Repórter Brasil revelam que, entre 2015 e 2025, o Brasil contabilizou 73.391 casos de intoxicação por agrotóxicos, dos quais 9.729 ocorreram apenas no último ano.



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