A disseminação de discursos antivacinação e as recentes mudanças nas políticas de imunização promovidas pelo governo de Donald Trump deflagraram nos Estados Unidos o pior surto de sarampo das últimas três décadas. Somente em 2026, o país norte-americano já registrou mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes. Do total de doentes infectados, 98% não apresentavam o esquema vacinal completo.
A deterioração dos índices de vacinação nos EUA traz forte impacto geopolítico e sanitário para a América Latina. Em avaliação do diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, Eder Gatti, a postura negacionista do governo americano coloca em xeque a segurança epidemiológica de todo o continente americano.
Apesar da forte pressão internacional — a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) contabiliza mais de 56 mil casos e 80 mortes nas Américas —, o Brasil tem conseguido manter o status de território livre de transmissão sustentada do sarampo, selado em 2024.
Até o momento em 2026, foram identificados 61 casos no país, quase todos importados ou diretamente relacionados a viajantes vindos do exterior. A manutenção da barreira sanitária baseia-se na recuperação substancial da cobertura da vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) na infância:
| Período | Cobertura D1 (1ª dose) | Cobertura D2 (2ª dose) |
| 2023 | 88% | 66% |
| 2024 | 96% | 78% |
| 2026 (dados preliminares) | 95% | 80% |
A meta preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para garantir a imunidade coletiva é de 95% de cobertura contínua.
Em agosto de 2026, o governo americano cortou de 17 para 11 o número de vacinas de recomendação geral para crianças e ordenou o desmembramento da tríplice viral em três injeções separadas — medida considerada inviável por especialistas, uma vez que as doses isoladas deixaram de ser fabricadas há cerca de 20 anos.
O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, enfatiza que as medidas contrariam os consensos da Academia Americana de Pediatria e geram confusão na população:
"A confiança é fundamental para que a vacinação funcione. O sarampo é uma das doenças de mais fácil transmissão. Se 95% das pessoas ao redor estiverem vacinadas, cria-se uma rede de proteção para recém-nascidos e imunossuprimidos que não podem tomar o imunizante."
Trump justificou a divisão da vacina repetindo a tese falsa de uma suposta relação com o autismo — teoria repetidamente desmentida por revisões científicas internacionais.
Os desdobramentos da política antivacina nos EUA já reverberam nas maternidades brasileiras. Segundo a SBIm, cresceu a recusa de pais à aplicação da vacina contra a Hepatite B ao nascer — cuja recomendação universal também foi suspensa nos EUA. A infecção pelo vírus da hepatite B em recém-nascidos evolui para quadros crônicos (como cirrose e câncer de fígado) em 90% dos casos.
Para impedir que os casos importados voltem a gerar surtos como o de 2019 (que registrou 19 mil casos no estado de São Paulo), os órgãos de saúde do Brasil realizam ações de varredura e bloqueio vacinal. Somente em 2026, o estado de São Paulo aplicou cerca de 4 milhões de doses extras da tríplice viral em áreas sob suspeita, enquanto o Amazonas aplicou 192 mil doses em resposta a 17 casos detectados.
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